Sábado, Julho 29, 2006

A soja do frango

Miriam Leitão

Enormes "frangos" entraram nas lojas de fast food em Londres e começaram a perguntar aos clientes se eles sabiam que estavam comendo soja que poderia ser de área desmatada da Amazônia. Isso foi em abril. Os "frangos" eram espalhafatosos militantes do Greenpeace. Seis horas depois, a direção do McDonald's ligou para o escritório da ONG querendo entender melhor o assunto.
A soja é o principal alimento do frango, e a Europa o maior destino da soja brasileira. A manifestação no McDonald's foi o ponto visível de uma campanha que levou ambientalistas a se reunirem, aqui e no exterior, com grandes multinacionais e empresas brasileiras de soja, cadeias de supermercado, exportadores e produtores agrícolas. O resultado: a Associação Nacional de Exportadores de Cereais e a Associação Brasileira da Indústria de Óleos Vegetais anunciaram que, a partir de agora, não vão comprar soja produzida em área desmatada.

O caso é o exemplo de como funciona o mundo globalizado, como se organizam as redes; os interesses se conectam e as decisões são tomadas. O Ministério da Agricultura disse que pode estar se formando uma "barreira não tarifária" à soja brasileira. Quando o relevante era o contato governo a governo, esse tipo de afirmação do ministério era suficiente. Daí, passava-se a uma ação no antigo Gatt contra a "barreira não tarifária". Hoje, para proteger os interesses comerciais, é bom entender como funciona a cabeça do consumidor.
Por que o McDonald's levou apenas seis horas entre o primeiro homo galinacius entrar em sua loja e a ligação para o Greenpeace para discutir o que a ONG estava tentando dizer? Porque os McNuggets e os McChickens começaram a entalar na garganta dos comedores de fast-food. O apelo do consumo ético está crescendo. É melhor corrigir o problema que procurar conspirações. Afinal de contas, é do interesse do Brasil que seja preservada a Amazônia e, de mais a mais, há muita área disponível para cultivo e pastagem; não é necessário continuar desmatando no ritmo enlouquecido que nos levou, em três anos, 70.000km² de floresta.
Os grandes produtores de soja do Brasil são três estrangeiras - Cargill, ADM e Bunge - e a brasileira Maggi, do governador de Mato Grosso, Blairo Maggi. A Cargill escoa sua soja num porto construído por ela entre os rios Tapajós e Amazonas, que tem sido objeto de briga na Justiça.
- O porto foi construído sem o estudo de impacto ambiental; assim a Cargill já foi condenada no Tribunal Federal a fazer o estudo. Além disso, ela incentivou os pequenos produtores da região a produzir e isso aumentou muito a grilagem e o desmatamento - disse Paulo Adário, coordenador do Greenpeace na Amazônia.
Em um relatório chamado "Comendo a Amazônia", de fevereiro, a ONG denunciou a relação entre as três multinacionais e o desmatamento. Pelo documento, as empresas constroem infra-estrutura de armazenamento e escoamento da soja e isso atrai os produtores, que se instalam lá através de grilagem e desmatamento; muitos deles usam trabalhadores em condições análogas à escravidão. O relatório dá o nome das empresas que são citadas na lista suja do trabalho escravo e que fornecem para as três multinacionais.
Antes da ação nas redes de fast-food, o relatório já havia sido divulgado fazendo as conexões entre as empresas e o desmatamento. Quando o McDonald's procurou a Cargill nos EUA para perguntar o que era aquilo, a rede de fast-food já tinha os dados para discutir melhor. O McDonald's é o maior cliente mundial da Cargill. Isso pavimentou o caminho para a negociação que terminou esta semana com a moratória de dois anos assinada pelos exportadores brasileiros e produtores de óleos vegetais. O próprio McDonald's alertou outros consumidores corporativos. Quem compra da Bunge também foi atrás. A Maggi tem uma fragilidade a mais: depende muito do crédito de bancos, como o IFC, que têm exigências ambientais. Nos últimos dois meses, os ambientalistas fizeram várias reuniões em Washington, Londres, Bruxelas, Manaus, Cuiabá e Rondonópolis com as três multinacionais e a brasileira Maggi, com as redes de supermercados e de fast-food que levaram ao fechamento do acordo.
- O que queremos é que as empresas respeitem as leis brasileiras, como a Instrução Normativa 010, que exige o registro das fazendas da região com o mapa georreferenciado, que o estado de Mato Grosso mantenha as exigências para a concessão de crédito que existiam na época do governador Dante de Oliveira, que se legalize o agronegócio brasileiro e se mantenha a integridade da floresta que está em pé - afirma Paulo Adário.
A soja brasileira compete com o produto americano, o Brasil está no meio de uma briga planetária pela redução dos subsídios à agricultura e, se os subsídios caírem, o Brasil será ainda mais competitivo; a quem interessa os constrangimentos ao produto brasileiro? Aos nossos competidores, é claro. Mas interessa aos brasileiros também a proteção da floresta, o respeito às leis e a regularização fundiária da Amazônia. A saída não é condenar os interesses dos competidores do agronegócio brasileiro. O melhor caminho é a formação de alianças pelo respeito aos direitos humanos e ao patrimônio ambiental do país.

O Globo - RJ


Bebido por... [Dostoiévski] às 11:21 AM

Cafeinizaram:


Sábado, Julho 22, 2006

Liberdade é Solidão

Felipe Biglia

Penso em você, penso em nós.
Eu te quero e te afasto.
Tenho medo de lutar por você
E do que posso perder nesta luta.

Não sei se agüento as palavras
Que me dirão e que me dirás.
São poucas as vantagens que vejo
E são essas que eu quero gozar.

Liberdade também é solidão.
Ir e vir tem o seu preço.
Não me ajoelho para pedir perdão.
Entro num mundo que não conheço.

Uma crise pequena mas exata.
Poucos vêem, e ninguém sabe.
No fundo é você que me mata,
Faz com que meu mundo desabe.

Minhas palavras não tem sentido.
Você é a conjunção que se encaixa.
Sei que sem isso estou perdido,
Sentado com a cabeça baixa.

Queria te ver imediatamente.
Dizer o que o papel recolhe.
A responsabilidade me impede,
E o meu ego se encolhe.


Cegar-me à luz de seus olhos,
Ser guiado pelo aroma de seu corpo.
Escrever por cima do passado
Com a caneta que o presente me empresta.

Esquecer o tamanho do mundo
Nem que seja por um momento.
Fazer transbordar pelo universo
Este amor que aumenta com o tempo.

Parece que a distância se expande.
Sua imagem está na minha frente.
Mas sua alma ocupa outro espaço.
Meu coração não mais te sente.

As lembranças são maus guias
Que distorcem o caminho.
Parece que está acompanhado
Mas caminha sozinho.

Deito e te abraço.
Acordo sem você ao meu lado.
Desespero-me sem te ver.
Lembro-me do sonho acabado.

Mato-me sem você.
Despejo-me no cinzeiro.
Nada mais faço.
Apenas ouço.

Quando a música acaba
A fumaça voa sem rumo,
Segue o balanço do vento
Com meus sentimentos juntos.

Onde está você?
Repito freqüentemente.
Quero-te em mim
Como a força do meu coração.


Vejo que a coragem é escassa.
A vontade que me engrena
É o peso que me esmaga
Enquanto o coração gangrena.

De tão rápido quase para.
Precisa do comando da sua voz.
Em cada sorriso seu uma diástole,
Em cada viagem uma sístole.

Tento provar para mim
Que conheço o caminho certo.
Sigo bem uma parte do caminho
E paro quando já estou perto.

Espera que eu diga algo.
O seu rosto me questiona.
Não consigo e me calo.
Síndrome de quem se apaixona.

O remédio é caseiro
Não se vende em farmácia.
Extraído do mel dos lábios,
Tem comprovada a eficácia.

O tempo é curto e passa rápido.
Não o enfrento e por isso espero,
Sei que no fundo não estou perdido.
Amo a força com que te quero.

Bebido por... [Dostoiévski] às 8:45 PM

Cafeinizaram:


Segunda-feira, Julho 17, 2006

Leis para valer

Domingos Pellegrini


Por onde tenho andado, vou sendo aclamado na minha candidatura, propondo as seguintes leis:
1) Aumento de salário de deputados e, por extensão, para senadores, vereadores, prefeitos, governadores e secretários municipais e estaduais, só com aumento correspondente do salário mínimo.

Aplaudem muito também a seguinte lei:
2) Fim da reeleição, para a missão pública não se tornar profissão. Os mandatos deverão ser cumpridos integralmente, de modo que ninguém poderá emendar um mandato no outro. Cada cidadão só poderá exercer um mandato legislativo e um executivo no decorrer da vida.

O povo vibra quando apresento também esta lei:
3) Funcionários públicos e ocupantes de cargos de confiança, inclusive deputados, senadores e juízes, terão um mês de férias anuais, conforme as leis trabalhistas.

Mas provoca silêncio de muitos e aplauso apenas de alguns minha lei sobre nepotismo:
4) Políticos eleitos e também juízes e promotores, bem como ocupantes de cargos de confiança, poderão encaminhar aos serviços públicos quantos parentes quiserem.

Os que aplaudem, silenciam, enquanto passam a aplaudir os que silenciaram, quando apresento o seguinte:
Parágrafo único: todos os cargos ocupados pelos mencionados parentes serão exercidos em regime de voluntariado, sem renumeração.

Depois de informar que a Justiça é lentíssima porque entupida de processos pelo Estado, que sempre recorre e apela, apresento a lei que o povo apelida de aposta-paga:
6) Municípios, Estados e União pagarão em dobro toda sentença a que recorrerem depois de condenados, em cada instância judiciária que confirmar a primeira sentença.

Mas o povo gosta mais quando apresento as leis a vigorar para essa Justiça futura, então aliviada dos processos oficiais:
7) O processo penal será reformado de modo a que nenhum processo se estenda por mais de um ano.

8) Fica extinto o regime de prisão especial, para cidadãos com formação superior ou em qualquer outra condição.

Quando apresento minha lei para os transportes coletivos, as multidões uivam em delírio:
10) Todos os ocupantes de cargos públicos tanto executivos quanto legislativos, relacionados aos transportes coletivos, bem como todos os executivos e diretores de empresas concessionárias desses serviços, deverão se locomover apenas através dos transportes coletivos que gerenciam, fiscalizam ou dirigem.

Mesma comoção causa a lei sobre saúde pública:
11) Todos os ocupantes de cargos públicos relacionados à saúde pública deverão procurar assistência médica, ambulatorial e hospitalar, inclusive para seus familiares, apenas nos postos e hospitais conveniados ao SUS, onde serão atendidos respeitando as filas e os procedimentos de praxe.
Parágrafo único: em emergências, poderão ser atendidos em pronto-socorro particular, se for localizado mais próximo.

Numa reunião em sindicato, com centenas de associados atentos, um levantou a mão:
- Mas, candidato, quem garante que, chegando ao Congresso, o senhor conseguirá fazer essas leis serem aprovadas?
- Só há uma garantia - respondi: - Se o povo se mobilizar para exigir isso dos poderes públicos.
- Mas como a gente vai se mobilizar como o senhor quer, se a gente tem de trabalhar pra viver? - perguntou o cidadão, enquanto outros começaram a gritar que se povo fizesse política, não seria povo!
Me preparei para responder, olhando minhas anotações, já que, como político reformador, não tenho assessores, e então acordei.

GAZETA DO POVO (PR) - 16/7/2006


Bebido por... [Dostoiévski] às 10:03 PM

Cafeinizaram:


Sexta-feira, Julho 14, 2006

Paixão nacional


CRISTOVAM BUARQUE


Em cada dez dos melhores jogadores de futebol do mundo, pelo menos cinco são brasileiros.
Entre todos os prêmios Nobel do mundo, nenhum é brasileiro.
Entre os grandes jogadores brasileiros, quase todos têm origem pobre, enquanto quase todos os profissionais de nível superior vêm das camadas ricas e médias.
Nestes tempos de Copa do Mundo, a TV e o rádio mostram, todos os dias, pequenas biografias dos nossos grandes jogadores.
Em comum, todos têm o fato de terem começado a jogar futebol aos quatro anos de idade, em algum campo de pelada perto de casa, às vezes no quintal de um amigo.
Todos continuaram com persistência o desenvolvimento de seus talentos.
Transformaram-se em grandes craques, graças à oportunidade, ao talento e à persistência.
No Brasil de hoje, 20 milhões de meninos jogam futebol.
Se apenas um em cada dez mil tiver talento e persistência, nas próximas Copas teremos dois mil ótimos jogadores; se for um em cada um milhão, ainda assim teremos dois times completos, formados por grandes craques.
O mesmo não vai acontecer com a ciência, a tecnologia e a literatura no Brasil.
Não teremos 20 prêmios Nobel, nem mesmo juntando, a esses meninos, os outros 20 milhões de meninas.
Porque poucos entrarão na escola aos quatro anos.
Não terão acesso a verdadeiras escolas, não poderão persistir no desenvolvimento de talento, não terão livros ou computadores como têm bolas.
O Brasil tem grandes craques graças ao gosto pelo futebol, ao tamanho da nossa população e ao fato de que todos têm acesso à bola e ao campo de pelada.
Nosso país não tem, até hoje, nenhum Prêmio Nobel de Literatura ou Física, porque poucos têm acesso a ensino de qualidade desde a primeira infância, com professores bem remunerados, preparados e dedicados, dispondo de livros e computadores na quantidade e qualidade necessárias.
Os campos e as bolas surgem espontaneamente, ou pelo esforço da comunidade e dos próprios meninos.
A escola e os computadores só estarão à disposição se houver um esforço deliberado do país inteiro.
Ninguém vira craque por sorte, e sim por talento e persistência.
Mas, no Brasil, o desenvolvimento intelectual depende, antes de tudo, da sorte de nascer em uma família rica, em uma cidade próspera, com um prefeito que dê prioridade à educação.
O talento e a persistência vêm depois porque, antes, precisam de oportunidade: uma escola de qualidade.
O desenvolvimento intelectual depende de condições criadas pelo Estado nacional: escolas, livros, computadores, professores.
Se tivéssemos feito isso há cinqüenta anos, o Brasil seria o campeão do saber, e não o lanterninha, posição que ocupamos atualmente.
Se o fizermos agora, daqui a 20 anos teremos recuperado terreno, e aí teremos a chance de vencer não só a Copa do Mundo, mas também a Copa do Saber, do conhecimento, da ciência, da tecnologia, da literatura.
Ganharemos as medalhas do Nobel, além das taças da Copa.
Além do mais, teremos o capital e as bases para construirmos o Brasil do século XXI.
O futebol deslumbra, mas só o saber constrói.
Tudo isso, porém, enfrenta um grave impedimento: os brasileiros têm paixão pelo futebol. As vitórias emocionam, as derrotas deixam todos abatidos. Mas não existe a mesma paixão pela educação.
Há semanas, os meios de comunicação informaram que estamos perdendo para o Haiti em termos de repetência escolar.
Nada aconteceu, ninguém se incomodou. Se tivéssemos perdido para o Haiti no futebol, nossos jogadores teriam sido muito mal recebidos na sua volta ao Brasil.
Para que as medalhas intelectuais cheguem, é preciso ter pela escola a mesma paixão que o Brasil tem pelo futebol.


Bebido por... [Dostoiévski] às 3:10 PM

Cafeinizaram:


Sexta-feira, Julho 07, 2006

EM PROVA ORAL DO CURSO DE MEDICINA, O PROFESSOR SE DIRIGE AO ALUNO E PERGUNTA:

- Quantos rins nós temos?
- Quatro! Responde o aluno.
- Quatro? Replica o professor, arrogante, daqueles que se comprazem de tripudiar sobre os erros dos alunos. - Traga um feixe de capim, pois temos um asno na sala - ordena o professor a seu auxiliar.
- E para mim um cafezinho! Replicou o aluno ao auxiliar do mestre.

PROFESSOR FICOU IRADO E EXPULSOU O ALUNO DA SALA. O ALUNO ERA, ENTRETANTO, O FAMOSO HUMORISTA BRASILEIRIO APARÍCIO TORELLY (1895-1971), MAIS CONHECIDO COMO O "BARÃO DE ITARARÉ", TÍTULO QUE SE AUTO CONCEDEU PARA DEBOCHAR DA FAMOSA BATALHA QUE NÃO HOUVE NA REVOLUÇÃO DE 1930.

AO SAIR DA SALA, O ALUNO AINDA TEVE A AUDÁCIA DE CORRIGIR O FURIOSO MESTRE:

- O senhor me perguntou quantos rins "nós" temos. "Nós" temos quatro: dois meu e dois teus; TENHA UM BOM APETITE E DELICIE-SE COM O CAPIM!!!!

Bebido por... [Dostoiévski] às 7:22 PM

Cafeinizaram:


Sábado, Julho 01, 2006

Eliane Brum

O catador de lixo Severino Manoel de Souza fechou os olhos. A guilhotina preparava-se para decepar Machado de Assis. Algumas das melhores páginas da literatura brasileira seriam reduzidas a papel branco, 8 centavos o quilo. "Pára", gritou Severino. "Isso é um crime muito grande." Foi nesse momento, tendo por cenário um galpão de reciclagem, que começou a biblioteca dos sem-teto do edifício Prestes Maia.
No centro de São Paulo, o prédio é considerado a maior ocupação vertical da América Latina. É dividido em dois blocos, um de 20 andares e outro de nove. Abriga 468 famílias, 1.630 pessoas, entre elas 315 crianças e 95 velhos. Garçons, manicures, ambulantes, faxineiras, seguranças e muitos bolivianos que trabalham em regime de semi-escravidão em confecções dos bairros do Brás e do Bom Retiro. Desde setembro do ano passado, essa ratoeira de esperanças ganhou ares de milagre ao testemunhar nos porões o nascimento de uma biblioteca comunitária.
Ao impedir a execução de Machado de Assis, Severino não pôde mais se livrar dos livros. Ele e a mulher, Roberta Maria da Conceição, de 44 anos, passaram a abrigar todos os exemplares sem-teto que iam topando pela rua. Arrumavam um canto no carrinho de papeleiro e depois empilhavam uma parte no apartamento invadido, outra no porão do Prestes Maia. Foram os primeiros 600 livros da biblioteca, hoje com quase 7 mil exemplares. Tal é a popularidade da obra de Severino que ele não pára de receber novos inquilinos doados por escolas e anônimos. Só mesmo Paulo Coelho, autor mais procurado pelos moradores do edifício e das redondezas, é dos poucos fardões da Academia Brasileira de Letras que ainda não compareceram.
Severino, sertanejo de Pernambuco, nunca sentou em um banco de escola. "Não tenho nem cultura nem literatura", diz. Depois de descarregar um caminhão nos arredores do Recife, ainda garoto, Severino se perdeu. Varou a noite sem conseguir decifrar destinos de ônibus e indicações de placas. Quando finalmente chegou em casa, avisou ao tio: "A partir de hoje vou parar de ser pessoa burra, analfabeta, cega e tapada".
Postou-se diante de uma banca de jornal e pediu: "Moço, vosmecê tem uma carta de ABC?". O moço tinha. Deu até de presente. "Coloquei o abecedário, o primeiro livro fundado no Nordeste, debaixo do meu chapéu de couro e andei com ele na cabeça por cinco meses", diz Severino. "Tinha ouvido falar que a ciência do livro vai passando para a cabeça." Por sorte também estudou um tanto na boléia do caminhão. O tio avisou: "Vai ficar traumatizado de tanto ler".
Ele aprendeu. Passou então a escrever o nome em carvão, na areia, nos postes, povoou um pedaço de Pernambuco com traçados severinos. Quando achou que estava bonito, comprou um "lápis de pau-brasil". Ficou tão sabido que voltou ao sertão com duas canetas e uma caderneta no bolso. Quando começou a alfabetizar, tinha 26 alunos. Acabou ensinando 231 a "assinar o nome e conhecer literatura".
O coronel da vizinha cidade de Orobó, Rafael Virgulino de Aguiar, supostamente um parente de Lampião, era homem bem macho e lacrimejou de alegria. "Aquilo foi um carinho muito grande pra ele", diz Severino. Foi mesmo. O coronel deu traje completo para todos que tinham idade para ser eleitor, pagou o registro no cartório e avisou que os menores de idade, mas com altura vistosa, podiam espichar um pouco os anos para exercer o dever cívico do voto o mais rápido possível. O coronel, Severino sublinha, era um patriota.
Severino seguia um atalho de prosperidade quando descobriu que a família tinha se bandeado do sertão para São Paulo. Seguiu logo atrás. Esse desvio no destino lhe custou caro. Teve um dissabor atrás do outro, chegou a cair 9 metros de um andaime, por pouco não morre. Levou porretadas da polícia, perdeu dinheiro e saúde. Uma desgraça atrás da outra. Até convidar a ambulante Roberta "para fazer um lanche". A conversa se estendeu para "um entendimento" no quartinho apertado em que ela se espremia no centro. E seguiu pelas ruas até o fatídico encontro com Machado de Assis.
Esse é só um resumo da vida de cordel de Severino Manoel de Souza. Aos 56 anos, ele é uma espécie de José Mindlin dos sem-teto. Tomado de tais amores pela biblioteca que ajudou a fundar, a renda caiu muito desde então, e os sete membros da família sobrevivem hoje com menos de R$ 100 por mês. Um azougue o Severino. Ele agora sonha com uma brinquedoteca para a criançada. "Bota aí na revista que as doações de livros e brinquedos podem ser feitas diretamente na Prestes Maia, 911", afirma. O que Severino diz, se escreve.
Lamartine Brasiliano da Silva mora no 6o B. É um entre 1.630 sem-teto que, desde 2002, tiraram toneladas de lixo do prédio e se instalaram entre vidraças quebradas, canos furados, fiação perigosa e paredes destruídas. Ele ganha o sustento vendendo água e refrigerante num farol da Avenida Tiradentes. Mas tem mais fome de livros que de pão. Discípulo de Gilberto Freyre e Guimarães Rosa, Brasiliano deita-se com a literatura e acorda no Prestes Maia. O conhecimento serviu para iluminar a escuridão de sua existência. "A paixão pelos livros não me liberta da realidade. Meu futuro é uma caixa de isopor, água e farol", diz ele. Então o olhar de Brasiliano ganha febre. "Minha realidade é sem luz." Naquele momento, a Eletropaulo havia cortado a energia do Prestes Maia afirmando haver risco de incêndio.
Ele nasceu Lamartine 38 anos atrás. A mãe dele e de outros 19, a doméstica Lúcia Maria, era uma apreciadora do compositor Lamartine Babo. O Brasiliano ele herdou do pai. O gosto pelo Brasil nasceu com ele. A língua portuguesa imiscuiu-se nos ouvidos de menino de feira no Recife e se enraizou como mangue, quando conheceu Gilberto Freyre e Guimarães Rosa nas bibliotecas públicas da capital pernambucana. Lúcia Maria não tinha dinheiro para calçar com "sapato-conga" as duas dezenas de filhos, uma exigência para freqüentar a sala de aula. "Minha mãe fez então uma seleção", diz. "Sou dos que ficaram fora da escola."
No time dos descalços, Brasiliano tinha tamanha ânsia que pulava o muro do colégio e espiava as aulas pelas frestas da janela. "Quando o porteiro me pegava, jogava pra fora", diz. Descobriu os livros perseguindo os alunos em trabalhos escolares na biblioteca. Pesquisava como se fosse estudante, mas era só um menino pobre exilado das letras. Tanta era a gana que acabou aprendendo sozinho a juntar consoantes e vogais num dos cordéis da feira, entre macaxeiras, cabritos e uma alegria desmazelada. As letras se arranjaram como numa partitura, e ele leu pela primeira vez sobre "A chegada de Lampião no inferno". Tinha 7 para 8 anos. Foi como uma ponte sobre o fosso de sua vida.
Enquanto peregrinava pelo sertão real da infância em andanças pela mão da mãe, Brasiliano precisava da ficção para suportar dor, aridez e humanidade. "Os livros se tornaram um grande refúgio. Neles, sou personagem", diz Brasiliano. "Viajei pelo sertão de Minas Gerais levado pelo grande Guimarães Rosa, pelo sertão de Alagoas com o grande Graciliano Ramos, pelo sertão da Paraíba com o grande José Lins do Rego."
A ponte oferecida pelo conhecimento, porém, é sempre trágica. No meio do salto, revela o tamanho do abismo. Enquanto descobria o Brasil pelo "livro que todo brasileiro devia ler", Casa Grande e Senzala, de Gilberto Freyre, o Brasil se revelava a Brasiliano. "Tive uma vida de farol. No Recife trabalhava com macaxeira, carregava todo dia nas costas por uns 50 quilômetros da roça até a cidade. Todo esse peso a pé. Fiquei com hérnia", diz. "Queria um emprego fixo para estudar. Vim pra São Paulo cinco anos atrás com meu filho Silvestre." Silvestre por causa do nome da corrida que ele sonhava disputar com o filho. Nunca conseguiu os R$ 55 da inscrição.
Brasiliano não encontrou emprego na maior cidade do país. À margem da Avenida Tiradentes, se enfileira ao lado dos brasileiros sem-lugar que esperam o sinal fechar para bater em janelas que raramente se abrem. Minutos escassos de corridas vertiginosas desviando de motoboys e buzinas, no cálculo exato entre viver e ser atropelado.
Em março, ele pedalou até os portões da Bienal do Livro para descobrir que para entrar precisava de R$ 10, que, evidentemente, não tinha. Emprestou então seus livros, comprados todos em sebo em longas economias de R$1, para a bienal alternativa da Praça da Sé. Enfaixou com fita adesiva seu alquebrado exemplar de Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Márquez, e ofereceu-o a seus iguais como "banquete literário", nome dado pela ONG Educa São Paulo ao evento paralelo. Os fiscais da Prefeitura recolheram cadeiras, mesas e quase 3 mil livros porque não havia "autorização de uso do espaço público". A maioria foi devolvida mais tarde. Cem Anos de Solidão se perdeu. Foi assim que São Paulo engoliu a Macondo de Brasiliano. "Sou um pássaro sobrevivente, exilado da minha sensibilidade", disse ele na ocasião, em uma citação do poeta J.G. de Araújo Jorge.
Brasiliano ancorou entre as paredes abandonadas do Prestes Maia depois de dormir por um ano em albergues de sem-teto com o filho ainda criança. Tão logo pôde, colou quatro bandeiras do Brasil na porta do apartamento-barraco, soma do seu cômodo com o de Maria Domingas Lopes Nascimento. Os dois se conheceram lá mesmo e se amasiaram por necessidade. Ela, de 39 anos, mãe de quatro filhos e avó de uma neta, começou a enxergar as letras embaralhadas quando passava para a 4a série no sertão do Maranhão. Deixou a mãe, a quem não vê há 23 anos, como guardiã do único livro que ganhou na vida. Veio para São Paulo aos 16 anos de idade, "atrás de estudo e de visão". Não conseguiu nem um nem outro.
Debaixo do teto fugidio do Prestes Maia, sempre ameaçada de despejo, Domingas se rendeu por pena daquele homem sem mulher, criando um filho sozinho, jantando num canto o pão puro engolido com o café que ela aquecia. "Acabei me comovendo com aquele viver", diz ela. "Sou muito comovida." Mais comovida ficava quando dividiam a portaria do prédio, serviço voluntário e rotativo nos primeiros tempos de ocupação. Brasiliano desembrulhava o mapa e desfiava a história e a geografia dos países como "se tivesse viajado por todos eles sem sair do Brasil". Domingas e Brasiliano, dois sem-teto na portaria de um prédio em ruínas fazendo um cruzeiro pelo mundo.
O amor de ocasião gerou mais dois filhos para ambos, Aquiles e Atenas - dois nomes do "mundo velho" cujo significado Brasiliano conheceu assistindo ao programa Café Filosófico, da TV Cultura. Aquiles, de 2 anos, poderia ter sido "Arquimedes, o matemático". Entre os dois nomes ilustres, porém, "a Senhora Domingas, dona dos meus mares e navios", preferiu o do guerreiro. Atenas, com 1 ano, era para ter sido Acrópole. Mas também desta vez a senhora dona Domingas optou pelo "nome mais bonito". Na invocação aos deuses gregos, Brasiliano sabe que um destino brasileiro é mais implacável que a sorte fiada pelas parcas da mitologia. A vizinha boliviana de Brasiliano é mãe de Kimberly Brenda, no nome americanizado também ela ansiava por outra identidade para a filha. Apenas por um caminho diferente. Kimberly Brenda morreu aos 4 anos, incinerada na madrugada de 7 de setembro de 2003, quando o bloco A do edifício pegou fogo.
Brasiliano pergunta: "Se tenho mágoa? Como não ter mágoa deste mundo? Eu queria estudar literatura na universidade. Mas faculdade é um sonho tão distante que não existe. Para isso, eu tinha de estar na escola e estou no farol". No farol, ele é o rosto de um povo assassinado para o qual sempre é tarde demais. Ganha R$ 30 por dia vendendo água e refrigerante pela janela dos carros. Cada real a mais vai para a compra de um livro. Brasiliano economiza para comprar Sobrados e Mucambos, de Gilberto Freyre. Segue querendo entender o país. "É a continuação do nosso inho. Como Ronaldinho, que é inho e é herói", diz.
Assassinado aos poucos, dia após dia, Brasiliano sangra no sinal fechado. Empresta livros para os colegas de farol. Quando o sinal abre e a parte do Brasil que tem caminhos acelera, Brasiliano e os seus debatem sobre o que leram, estão lendo, ainda desejam ler. São salvos pelo desejo de não se deixar matar. Brasiliano bota Seara Vermelha, de Jorge Amado, na mão do vizinho de ocupação Jeferson Rocha, segurança noturno, para acompanhar "a saga de uma família de retirantes que passa tanta fome que precisa comer o gato". "Foi o primeiro livro que li todinho", diz um espantado Jeferson, retirante maranhense. Dentro de casa, Brasiliano não se conforma que Silvestre não esteja apreciando O Guarani, de José de Alencar. Aos 14 anos, o garoto já leu Casa Grande e Senzala inteirinho. Mas agora está mais ocupado em adolescer.
Depois de uma semana na escuridão, a luz voltou ao Prestes Maia no início de junho. Brasiliano não precisa mais adivinhar os contornos da ratoeira de sua vida. No 6o B, por trás da porta com bandeiras do Brasil, os livros são atacados por baratas. Invasor de seu castelo, Lamartine Brasiliano da Silva pega um livro com devoção e se torna personagem, um homem com febre nos olhos.

ÉPOCA (SP) - SOCIEDADE - 11/6/2006






E a França ganhou do Brasil, e ganhou bonito.


Bebido por... [Dostoiévski] às 8:19 PM

Cafeinizaram:


Café Dostoiévski POP - Nem Parece Internet Grátis BloG by BLOGGER! By Dostoiévski!

Balcão


Cafés servidos

[English]

[Xícaras Passadas]

Clique aqui se você não está visualizando o menu esquerdo.


Links

Entre para o Grupo Seriados-TV® e discuta tudo sobre seriados! Digite seu e-mail na caixa abaixo, clique em "enviar" e siga as instruções!





Campanhas

Bate-Papo

Café Dostoiévski

Seriados-TV®

Blogs Indicados

Allons Enfants

Caretasso
Clarissa

Ervilhas Dureza

Flores do Bem

Jopliana

la vie en rose...

Mais ou Menas
Milton Ribeiro

Na Terra do Nunca

Omito, Lógico!
O Monoglota
On the Ledge
Ópio

Paxil Rosa
Pensar Enluquece, Pense Nisso
°o.O Poièsis O.o°

Simples Coisas da Vida
SpikeOS