Quinta-feira, Dezembro 28, 2006

A ética, o sanguessuga e o voto

Na reunião do Conselho de Ética da Câmara, que absolveu o ex-líder do PP Pedro Henry (MT), envolvido nas denúncias de desvio de recursos do Ministério da Saúde para a compra de ambulâncias, chamou a atenção o voto do petista Eduardo Valverde (RO).

Chamado a votar pelo presidente da Comissão, Ricardo Izar (PTB-SP), Valverde declarou: "Não gostaria de ser injusto com ninguém. Não tenho convicção sobre essa matéria. Quero abster-me". Sete deputados se ausentaram e sete, dos 15 do conselho, votaram pela absolvição de Pedro Henry, que já tinha se livrado antes de punição pelo escândalo do mensalão.

Como o relatório de Mussa Demes (PFL-PI) só tinha recebido sete votos, ficou a dúvida sobre a validade de uma absolvição por maioria simples. Alguns entendiam que eram necessários oito votos. Valverde, que minutos atrás havia dito que não tinha convicção, anunciou que mudara de posição: "Eu gostaria de rever o voto. Eu não quero deixar esta situação num impasse. Revejo o meu voto e acolho o do relator".


Fonte: O GLOBO (RJ)


Bebido por... [Dostoiévski] às 3:41 PM

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Domingo, Dezembro 24, 2006

Feliz Natal?!

Desculpem o bode negro, mas a situação já passou de todos os limites. Está além do escândalo, além do horror e não conseguimos fazer nada. Pare por aqui, leitor amigo, se estiver deprimido, mas é que estamos diante do Insolúvel.

Um País paralisado na economia e na política não gera apenas fome ou injustiça social; gera uma degradação psíquica progressiva. No Rio, temos uma amostragem exemplar.

A cidade está se dissolvendo debaixo de balas perdidas e balas achadas, a cidade virou um pesqueiro para marginais, que descem de suas 500 favelas para curtir um "assaltozinho legal" ou fazer um tiro ao alvo de cidadãos desavisados, sem motivo, só pelo prazer.

Mas, não só o Rio. A zona geral do País, debaixo desse governo desgovernado, debaixo da estupidez paralítica da burocracia, da ausência de crescimento, de educação, está provocando um desvio forte na cabeça das pessoas. Estamos nos deformando. Física e psiquicamente. Não só tragédias visíveis, como guerra ou catástrofes naturais nos deformam. A tragédia do nada, a tragédia do zero de progresso vai nos virando em anomalias. Crescem rabos, chifres, verrugas, tumores em nossos corpos e mentes.

A principal anomalia é a crescente consciência de que o maior inimigo da governabilidade é o governo. Não é nem o Lula ou quem quer que seja. A própria estrutura dos três poderes está trincada, está trancando tudo, sim. Todo o desejo nacional é impedido ou pelo Legislativo ou Judiciário, com um Executivo que não sabe como executar, dividido entre democracia liberal e esquemas populistas. O último progresso que aconteceu neste País, por um acaso histórico, quase milagre, foi o Plano Real e uma certa responsabilidade fiscal que o governo anterior deixou como herança bendita. Depois disso, nada. Depois da crise dos mensalões, dos sanguessugas e do "dossier" (que até nos deram a ilusão de que algo se movia) tudo volta para atrás. O PT se desmoralizou, descobrimos que o PSDB não existe e que Lula trabalha para o PMDB. O Brasil é um flash-back, um filme rebobinando. Tudo se restaurou. Ninguém punido, crimes ignorados, Congresso asqueroso, Judiciário salvando partidos de aluguel, desativando qualquer avanço, a sordidez disfarçada em terminologia jurídica. Aumenta o sentimento de impotência e depressão. Certamente, nuvens negras se formam. Teremos algo torto, torvo. Todos sabemos que vem merda aí. Não sabemos ainda qual delas.

Além da depressão política, a novidade do ano: arrasamento dos serviços básicos. Com a crise geral dos vôos, enchentes sem tampa, queimadas eternas, florestas acabando, total incapacidade administrativa, chegamos a duvidar que a luz se acenda ou a água continue a jorrar das bicas.

Nossos corações estão mais duros. Para sobreviver, ficamos mais cínicos e mais reacionários. Irracionalismos raiam. Já pensamos: "Tem mais é de matar essa raça, essas polícias "mineiras" são boas mesmo, extermina, bota para quebrar!" Ou então: "Essa bosta não tem mais solução não. Vou cuidar da minha vida. Danem-se!"

Em vez de pena, já temos medo ou raiva da miséria: "Chiii, não agüento mais esses miseráveis nos sinais de trânsito, esses vagabundos descendo dos morros de bermudas e sandália havaiana. Só quero ver coisas bonitas..."
Mas, que "coisas bonitas"? Cada vez mais, aceitamos o feio. Nas paredes, nas ruas, só pichações imundas, ruas alagadas, paisagens destruídas, gente desesperada, mal paga, miséria nos rostos, nas roupas, nos gestos, nas falas, risos boçais, frases banais, falta de educação, analfabetos que sabem escrever, o surgimento de uma língua bárbara entre os bandidos, grunhidos da miséria, "tá ligado?" Ou "Vamos combinar que está punk esta parada, fala sério!" - como reagem os playboys.
O império do fragmentário: faits divers, notícias sem importância e denúncias vazias que não se completam, não formam sentido, se repetem num círculo vicioso; é a pequena história das irrelevâncias e o surgimento do Insolúvel como categoria política.

Na Academia, o discurso da melancolia teórica, a nostalgia de uma pureza perdida ou da "revolução" sumida. Ausência de um pensamento crítico novo, para além do lamento contra o capital. Surge um amor à truculência ou ao simplismo. Chávez como esperança; tudo, menos aceitar que temos de abrir caminho para o óbvio: reduzir o Estado, lutar por um choque urgente de administração e reformas que nos tirem do buraco. Isso, jamais; vai contra a idéia de controle, tanto à direita como à esquerda.

No meio do deserto ideológico, sem esperança ou projetos, a hipervalorização de bundas e pênis. O corpo como último refúgio, o sexo como única utopia. Nada temos além de barriga seca, bunda dura, peito de 200 mililitros, botox nos cornos, boca falsa dizendo bobagens, "cofrinho" à mostra, risos compulsivos, gargalhadas coloridas nas revistas, piercing nas vaginas.

Há também um aumento brutal dos psicopatas. Não só os queimadores de crianças, os esquartejadores felizes, mas os ladrõezinhos numa boa, influenciados pelo excesso de crimes banalizados pelo dia-a-dia. Indiferença à lei desmoralizada para sempre, alegre aumento de transgressões, com os sanguessugas e vagabundos em geral servindo de exemplos: "Vou ser ladrão sim, qual é? É bom negócio..."

Surge também a ética da permissividade irresponsável, a ética da não ética, desde que "assumida". "Numa boa, tem mais é que mentir mesmo, na política. Tem de sujar a mão. Sim, eu assumo, sou estuprador, mas assumo, numa boa..."

Paranóia geral. Desconfiança dos outros. O "outro" como chato, como competidor ou como inimigo.

Fim da idéia de cultura como acumulação, fim de "importância cultural", de panteon do saber. Com o fim do passado, um presente detestável e um futuro sem cara, importância cultural para quê?

Sensação de inutilidade crítica. Para que falar, para que escrever? Este artigo é inútil.

Arnaldo Jabor


Bebido por... [Dostoiévski] às 9:40 PM

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Domingo, Dezembro 17, 2006

Virada na madrugada

Dora Kramer


O relatório final da CPI dos Sanguessugas deixou muito, mas poderia ter deixado tudo a desejar. Foi pífio, mas seria absolutamente inócuo se na madrugada de quarta para quinta-feira os deputados Fernando Gabeira, Raul Jungmann e Carlos Sampaio e a senadora Heloísa Helena não tivessem ameaçado, às 2 horas da madrugada, denunciar publicamente a existência de um grande conchavo entre os grandes partidos de governo e oposição para transformar o resultado da CPI numa conta de soma zero.
Para evitar a desmoralização completa, a maioria recuou e o relator Amir Lando concordou em pedir o indiciamento de dez envolvidos no dossiê Vedoin por formação de quadrilha e estabelecer o vínculo entre os autores e operadores do dossiê e as campanhas eleitorais do presidente Luiz Inácio da Silva e do candidato ao governo de São Paulo, Aloizio Mercadante.
O pequeno "exército brancaleone", que na fase inicial da CPI, no meio do ano, conseguiu dar substância à comissão e expor ao eleitorado as infrações de 72 parlamentares no manejo de emendas para compra de ambulâncias, usou das únicas armas de que dispunha - a pressão e o grito - para impedir que o relatório fosse totalmente anódino.
No documento original, levado ao exame da comissão horas antes de sua apresentação, não era citada qualquer relação entre o dossiê contra os tucanos e as campanhas de Lula e de Mercadante, apesar das evidências, bem como não eram previstos indiciamentos de nenhum dos personagens envolvidos.
Pela vontade do relator e da maioria da comissão, sequer haveria a citação do relatório parcial de agosto com os pedidos de abertura de processos por quebra do decoro parlamentar contra 69 deputados e 3 senadores.
A grande maioria não foi reeleita, a despeito da condescendência posterior do Congresso onde, depois das eleições, as grandes forças se reorganizaram e impediram punições por quebra de decoro.
Não fosse a disposição de Gabeira, Jungmann, Sampaio e Heloísa de amanhecer o dia denunciando publicamente a existência de um grande acordo para desmoralizar a comissão e livrar suspeitos ligados ao governo e à oposição, a CPI teria terminado servindo de aval à anistia corporativa.
"Ficamos no limite do possível. Não tínhamos como arrombar as portas intransponíveis que se levantaram contra a possibilidade de um resultado mais consistente", diz Raul Jungmann, absolutamente convencido das razões objetivas pelas quais a CPI não conseguiu dar "um salto de qualidade".
O primordial, a atuação da Polícia Federal. "A PF não fez nada, não chegou a nenhuma conclusão depois de três pedidos de prorrogação do prazo para as investigações. As 1.200 páginas do inquérito não contêm nada de fundamental além do que se sabe desde o estouro do escândalo."
Sem os instrumentos da polícia, não havia como a CPI avançar nas investigações. Jungmann cita um exemplo: a entrega só há poucos dias das imagens completas da "cena do crime" no hotel em São Paulo, onde dois petistas foram presos com o R$ 1,75 milhão para pagar o dossiê ao chefe da máfia das ambulâncias, Luiz Antônio Vedoin.
Na visão do deputado, porém, a própria CPI tem grande culpa no cartório: ignorou requerimentos aprovados de convocação de gente como Ricardo Berzoini e Freud Godoy, tratou com reverente compadrio ex-ministros dos governos Lula e Fernando Henrique Cardoso e, depois, os grandes partidos boicotaram o pedido de prorrogação da CPI.
Não obstante as frustrações, Raul Jungmann julga que valeu o combate: "Se não conseguimos avançar o suficiente para dar respostas à altura do desafio proposto à CPI, eles também não conseguiram fazer as coisas regredirem ao ponto morto."

GAZETA DO POVO (PR) - 15/12/2006


Bebido por... [Dostoiévski] às 1:26 PM

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Domingo, Dezembro 03, 2006

Falando em transgênicos

Roberto Requião foi aplaudido pela bancada do Partido Verde e Socialista francês ao falar sobre os programas voltados à área de meio ambiente. O clímax em Rhône-Alpes aconteceu quando o Paraná foi apresentado como um estado modelo na resistência aos transgênicos.

Segundo Jean-Jack Queryranne, presidente da assembléia Plenária do Conselho Regional de Rhône-Alpes, "Sob o ponto de vista das relações agrícolas entre o Paraná e Rhône-Alpes é uma garantia para os franceses que poderão contar com produtos livres de qualquer contaminação por Organismos Geneticamente Modificados (OGMs)", disse ele.




Dado interessante


O salário mínimo brasileiro está em R$ 350, e o Congresso Nacional discute em quanto deve ficar a partir do ano que vem. Pensar em R$ 400 já parece otimismo. Todavia, o Dieese anunciou quanto deveria ser pago para que a Constituição fosse obedecida: R$ 1.613,08. O cálculo é feito com base no artigo que garante ao trabalhador um salário suficiente para lhe garantir o mínimo: alimentação, moradia, saúde, transportes, educação, vestuário, higiene, lazer e previdência.


Bebido por... [Dostoiévski] às 8:01 PM

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