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Sexta-feira, Junho 29, 2007
Dercy Gonçalves, que está completando 102 anos em 100 (sua família, em Santa Maria Madalena, RJ, levou dois anos para registrá-la), é hoje a mulher mais lúcida do Brasil. No ano de seu nascimento, 1905, o presidente da República era Rodrigues Alves. Seguiram-se 24 presidentes, três golpes de Estado, duas longas ditaduras, um suicídio, uma vacância por morte e um impeachment. Mas Dercy continua firme.
Quando ela nasceu, Machado de Assis estava vivo e ativo. E Olavo Bilac, João do Rio e Lima Barreto. O samba ainda não existia, assim como a marchinha de Carnaval e o jazz. A televisão, nem em sonho, nem mesmo o rádio -o cinema, sim, mas Hollywood, não. E Mario Reis (1907), Carmen Miranda (1909) e Noel Rosa (1910) também ainda não eram nascidos. Pode crer. Para não ir longe: Dercy nasceu um ano antes que Santos-Dumont voasse em Paris com o 14-Bis. O austro-húngaro Franz Lehar levaria dois anos para compor "A Viúva Alegre". Automóveis, gramofones e máquinas de escrever eram novidade, e as mulheres ainda se espremiam em espartilhos. "Tico-Tico", a revista, acabara de surgir -"Eu Sei Tudo", "Fon-Fon" e "Kósmos" ainda não. Dercy nasceu muito antes da Primeira Guerra (1914-1918), da Revolução Russa (1917) e da Gripe Espanhola (1918). Aliás, quando tudo isso aconteceu, ela já tinha idade para ler a respeito nos jornais. E, mais que adulta, foi contemporânea do massacre dos 18 do Forte de Copacabana (1922), da morte de Rodolfo Valentino (1926), do surgimento do cinema falado (1927), da inauguração do Cristo no Corcovado (1931). E tome polca. Dercy viu tudo e continua entre nós, mais sábia do que muitos. Não espera ou pede nada, e não acredita em ninguém, só nela. E, se a chatearem, ela manda para aquele lugar. Ruy Castro - FOLHA DE SÃO PAULO (SP) - 27/6/2007 Contraponto Em meados dos anos 70, um acidente de caminhão deixou lotado o hospital de São Bento do Una, em Pernambuco. Deputado estadual pelo então MDB, o médico Lívio Valença (1916-2003) foi chamado a ajudar no socorro às vítimas. Uma vez no local, iniciou a triagem dos feridos: - Este não é grave... Aquele pode mandar para a enfermaria... O outro ali precisa de cirurgia... Este está morto. - Ei, doutor Lívio, estou vivo! -, protestou, da maca, o homem cujo óbito acabara de ser declarado. Ávido por agradar ao chefe, um assessor do deputado repreendeu duramente o enfermo: - Cala a boca, rapaz! Vai duvidar do doutor Lívio? FOLHA DE SÃO PAULO (SP) - 27/6/2007
Quarta-feira, Junho 27, 2007
A EXTINÇÃO dos privilégios judiciais dos parlamentares não constitui prioridade de uma reforma política apenas por se tratar de um método de baixar o quórum bandido no Congresso. Nem só por acabar com o incentivo para que processados e condenados procurem se eleger para o programa de proteção a canalhas em que se transformou o mandato parlamentar.
O privilégio de ser investigado, processado e condenado apenas nas instâncias superiores da promotoria e da Justiça, nas quais o risco de condenação é raro e remoto, tem causado problemas mais graves que a disseminação da torpeza e da baixeza na vida política. As imunidades parlamentares, aliás, as imunidades das autoridades da República, ajudam a melhorar o ambiente de negócios do crime e a corrupção do Estado. Inquéritos policiais, além de CPIs federais e estaduais, já encontraram ligações de parlamentares, juízes e outros altos funcionários públicos com contrabando, fraude fiscal em combustíveis e cigarros, lavagem de dinheiro, caça-níqueis, bingos, jogo do bicho, desvio do Orçamento, grilagem de terras, furto e fraude em bancos estatais regionais e autarquias e mesmo pistolagem, grupos de extermínio e tráfico de drogas. Aliás, há conexões entre as quadrilhas responsáveis por todos esses tipo de esbulho da ordem. Em geral, o nexo das quadrilhas se dá por meio da lavagem de dinheiro, via fraude fiscal, evasão de divisas e operações com financistas do caixa-dois (como doleiros). Pelo menos desde a CPI do Narcotráfico, encerrada em 2000, sabe-se de juízes que vendem sentenças para doleiros, traficantes e prepostos. Os doleiros conectam quadrilhas que roubam dinheiro público, financistas do caixa-dois e máfias do jogo em esquemas de lavagem. As máfias do jogo têm conexões com traficantes. Vários desses dinheiros entram pelo cano do financiamento ilegal de campanhas eleitorais. O escândalo do mensalão foi inaugurado quando se flagrou Waldomiro Diniz, que viria ser alto funcionário da Casa Civil, a pedir propina para um chefão do jogo. Os amigos de Antonio Palocci, a "república de Ribeirão Preto", a casa do lobby, eram amigos de empresários do bingo. Isso para ficar em casos mais recentes, de compreensão mais simples e com personagens mais notórios. O parlamentar bandido precisa de lavagem de dinheiro, seja por meio de remessa ilegal de dinheiro para o exterior, negócios com gado ou negócios com terras, por exemplo. Ao requisitar o serviço sujo, alguns tornam-se amigos ou mesmo patronos de esquemas bandidos maiores. Juízes que vendem sentenças, vários deles desembargadores, reduzem ainda mais os custos e riscos da bandidagem. Todos melhoram, pois, o ambiente de negócios do crime. De menos imediato e evidente, facilitam a "informalidade" da vida econômica. Privilegiam empresas por meio de superfaturamento, associam-se a esquemas de vendas de notas frias. Claro, não estamos nem falando do desvio puro e simples de dinheiro dos impostos, mas só da pestilência estrutural disseminada pela impunidade das autoridades ditas públicas. Longe de abafar "casos isolados", o foro privilegiado tornou-se um meio sistemático de proteger a política do rolo e o crime. Vinicius Torres Freire - FOLHA DE SÃO PAULO (SP) - 26/6/2007 É o Bicho O zoológico de Brasília recebeu um visitante ilustre, na segunda-feira, dia 18. Os funcionários estranharam a movimentação, por se tratar de um dia que ele teria que ficar fechado à visitação (funciona de terça-feira a domingo). Três carrões pretos, com homens engravatados e armados, escoltavam outro veículo, de chapa de bronze. Dentro dele, o senador Fernando Collor de Mello (PTB-AL), que resolveu conhecer os animais num dia de pouco movimento no Congresso Nacional. CORREIO BRAZILIENSE (DF) - 26/6/2007
Domingo, Junho 24, 2007
Após sugerir que as vítimas do apagão aéreo ""relaxem e gozem"", a ministra Marta Suplicy (Turismo) ganhou um jatinho da FAB à disposição, 24 horas por dia. Ela alegou ""razões de segurança"" para evitar aeroportos e reações indignadas dos cidadãos. Como não há jatos suficientes para atender a todo o ministério, nestes dias de caos aéreo, a FAB tem sugerido aos colegas da ministra para pedir carona a ela, quando os destinos forem coincidentes.
A Justiça Federal do Pará fez um gol de placa: mandou para a cadeia, por 12 anos, o ex-prefeito de Abaetetuba (PA) por desvio de verbas públicas. Deputados estaduais do Rio Grande do Sul rejeitaram o aumento de 28,5% que os colegas federais, em Brasília, concederam a si mesmos. Os gaúchos vão discutir propostas de reajuste mais próximas à realidade brasileira. Cláudio Humberto - FOLHA DE LONDRINA (PR) - 22/6/2007 De sentimento nacional Mesmo sendo pobre, pobre de marrédeci, e à prova de qualquer proposta duvidosa, a jornalista de Pato Branco acompanha, preocupada, as operações cada vez mais frequentes da Polícia Federal. E resume o medo oculto de todos os brasileiros: - ""Tenho certeza que, mais dia, menos dia, vão acabar chegando em mim"". Ruth Bolognese - FOLHA DE LONDRINA (PR) - 22/6/2007 Confiança encolhida Sempre que o país formal se distancia do Brasil real, quem acredita e procura residir no primeiro adquire cidadania num país que não existe. Tanto especialistas como cidadãos comuns dão notícia e testemunho de que o cidadão brasileiro, principalmente nas cidades grandes, vive sob intenso cerco e brutal ataque da violência - tanto a instintiva e cega, como a deliberada e fria. É importante verificar se essa situação tem reflexo adequado e realista nos tribunais. Como mostrou outro dia bem documentada reportagem de Chico Otavio no GLOBO, o número de crimes aumenta no Rio sem parar, mas a cada dia mais encolhe o de processos criminais na Justiça. E é pequena - assustadoramente pequena, porque bate de frente com a realidade das ruas - a quantidade dos que resultam em condenação. (Não precisamos tratar disso a fundo hoje, mas é bom não esquecer que, mesmo com condenação e cumprimento de pena, criminosos profissionais - mesmo os muito jovens - muito raramente saem da cadeia transformados em cidadãos honestos e pacatos. O mais comum é aproveitarem a prisão para fazerem Ph.D. em banditismo.) Especialistas concordam que o sistema é ruim, independentemente da qualidade profissional de juízes, promotores e policiais. Quando, por exemplo, o réu está preso, o prazo para a investigação da polícia e a decisão do juiz é curto demais. Com pouco tempo para investigar, o trabalho da polícia, cujo aparato técnico é reconhecidamente muito limitado, perde qualidade e eficácia. Já quando o acusado está em liberdade, o inquérito não acaba nunca. A quantidade de falhas e problemas não sugere - ainda - que tenha chegado a hora de o Estado e a sociedade partirem para a concepção de um novo sistema, ou quase isso. Antes dessa etapa, há espaço para reformas e mudanças setoriais na área penal. Por exemplo, a remoção das normas que privilegiam o acusado endinheirado. Não é reivindicação demagógica. Não vamos esquecer que o traficante malvado e de origem humilde tem hoje em dia tanto dinheiro e poder quanto o banqueiro ladrão e o profissional liberal assassino. Ou muito mais. Ainda na área dos privilégios hoje oferecidos à turma do alto da pirâmide, é notável a presença de atestados fornecidos por médicos particulares. Sem ofender a classe: alguém acredita que o doutor amigo da família consegue ser isento quando decide se o patriarca tem ou não saúde para encarar o aborrecimento de um depoimento ou a humilhação de uns dias em cana? A reforma profunda do sistema penal certamente é necessária. A reportagem de Chico Otavio mostra-o claramente. Infelizmente, não é mudança que se opere rapidamente. Mas muitos vícios com odor de privilégio social podem ser varridos sem dor, alguma rapidez e bastante proveito. Não é questão secundária: tem tudo a ver com o crescimento da confiança dos habitantes do Brasil real na Justiça do país. Como as coisas estão hoje em dia ela tem encolhido sem parar. Luiz Garcia - O GLOBO (RJ) - 22/6/2007 Deu no Tutty Vasques "Rubinho Barrichello não vai carregar a tocha do Pan. O COB ficou com medo de atrasar a abertura do evento". "Segundo Lula, 'o Brasil vive seu melhor momento desde que a República foi proclamada'. Isso quer dizer o seguinte: isso aqui nunca foi bom!" Fique Esperto Começou a circular a uma semana e já fisgou vários internautas um e-mail que teria um link para um vídeo da modelo Paris Hilton na prisão. É um vírus do tipo cavalo de tróia. Os distraídos clicam.
Quarta-feira, Junho 20, 2007
Dona Marisa inaugurou tardes de chá com amigas e mulheres de ministros, em conversas francas e divertidas. Na semana passada, o tema principal do papo, é claro, eram casos extraconjugais na Esplanada dos Ministérios.
Gilberto Kassab (DEM) embolachou um cidadão que reclamava dos maus serviços públicos, e sua rival à prefeitura de São Paulo, Marta Suplicy (PT), recomenda que se ""relaxe e goze"". A campanha de 2008 será uma delícia. Cláudio Humberto - FOLHA DE LONDRINA - 18/6/2007 Diferença entre Justo e Perfeito! Dois advogados encontram-se no estacionamento de um motel e reparam que cada um está com a mulher do outro. Após alguns instantes de "saia justa", em tom solene e respeitoso, um diz ao outro: - Nobre colega. Creio eu que o PERFEITO seria que a minha mulher venha comigo, no meu carro, e a sua mulher volte com Vossa Senhoria no seu. Ao que o outro respondeu: - Concordo plenamente, nobre colega, que isso seria o PERFEITO. No entanto, não seria JUSTO, levando-se em consideração que vocês estão saindo e nós estamos entrando. GAZETA DO PARANÁ - 13/6/2007
Sábado, Junho 09, 2007
Flaming Ele tomou muita sopa Misturou com cachaça Aí lhe veio uma poesia doida De tão alto que estava Correu, Ficou tonto com a trajetória traçada Da cozinha até a sala E quase não parando em pé Sobre a escrivaninha Vomitou todas as palavras.
Segunda-feira, Junho 04, 2007
Nova estrela do PPS de Pernambuco, ao lado de Roberto Freire e do deputado Raul Jungmann, a cantora Gretchen está lendo "Cartas a um Jovem Político", de Fernando Henrique Cardoso (194 páginas). O livro foi indicado por Jungmann. O PPS também prometeu a ela um professor particular de política. As aulas começam depois que ela terminar a obra.
Gretchen, até agora, leu dez páginas Perdi a fonte. Dicionário Lenocínio: do Lat. lenocíniu; s. m., acto criminoso de provocar ou facilitar a corrupção ou a prostituição de qualquer pessoa; alcovitice.
Sexta-feira, Junho 01, 2007
Pesquisador da UFPR defende capacitação dos agricultores e o combate à transgenia. Curitiba, PR (28/05/2007) - "A agricultura de base ecológica e os próprios sistemas agroecológicos de produção tendem a sofrer menos com as mudanças climáticas e os problemas causados pelo aquecimento global", é o que afirma o pesquisador da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Paulo Henrique Mayer. Doutorando em Meio Ambiente e Desenvolvimento, o engenheiro agrônomo Paulo Mayer é especialista em agroecologia e, muito conhecido entre técnicos, acadêmicos e agricultores familiares, ele é autor, junto com Inês Claudete Burg, do livro "Alternativas Ecológicas para a Prevenção e Controle de Pragas e Doenças", que já se encontra em sua 30ª edição.
O pesquisador visitou, na semana passada, a deputada estadual Luciana Rafagnin, na 2ª Secretaria da Assembléia Legislativa do Paraná, e conversou com a parlamentar paranaense sobre os impactos do aquecimento global na agricultura familiar da região Sul. Sócio-fundador da Rede Ecovida de Agroecologia e membro do Comitê de Assessoria Externa da Embrapa Soja, como um dos consultores da sociedade civil, ele diz que já passou da hora de uma mudança de atitude na produção de alimentos e no modo de vida das pessoas: "não se trata mais de um diferencial de conduta, de uma alternativa de vida e de trabalho, mas estamos diante da necessidade concreta de mudarmos a matriz produtiva e a base tecnológica na agricultura", afirma. Mayer critica a destruição ambiental causada pelo modelo da Revolução Verde e diz que é fundamental mover esforços e destinar grandes investimentos na capacitação dos agricultores, a fim de desmontar uma cultura e todo um raciocínio sobre o fazer agricultura, que se pautou por mais de 30 anos no extrativismo dos recursos naturais, na mecanização pesada no campo, na utilização de agrotóxicos importados e na monocultura de exportação. Ele aponta o investimento em capacitação como sendo o principal "insumo" da agricultura familiar daqui pra frente. O primeiro impacto do aquecimento global, que é apontado por ele, recai sobre a produção e a produtividade, porque diz respeito à mudança nas estações e, consequentemente, nos cultivos agrícolas. Mayer lembra que os agricultores familiares têm conhecimentos histórico-antropológicos sobre as épocas de plantio e os manejos adequados a cada cultura. Em ambientes com estações bem definidas, com clara distribuição de períodos de calor, de frio, períodos úmidos e secos, a alteração climática vem acompanhada de inseguranças na atividade produtiva e passa a exigir um tempo maior de adaptação dos produtores. De acordo com ele, o primeiro sintoma dessas mudanças é percebido no ciclo da água, que tem relação direta com a época de plantio dos alimentos. A floração do milho, por exemplo, coincide com o período das chuvas e encontra na umidade um fator essencial de desenvolvimento da planta. Com a tendência de aumento do período de estiagens na região Sul e especificamente nas regiões em que predomina a agricultura familiar, a fecundação dos grãos fica bastante comprometida. Reconstituir a natureza - A proteção das fontes, o reflorestamento da matas ciliares, a manutenção das áreas de preservação permanente (APP's) e das reservas legais deixa de ser uma opção dos setores mais conscientes e torna-se um imperativo de conduta: ou se toma essa atitude agora, para garantir a sobrevivência dos ecossistemas produtivos, ou se condena desde já ao abandono da atividade agrícola, porque o pesquisador ressalta que para quem não se dedicar a reconstituir a natureza, a inviabilidade da propriedade rural será um fato irremediável. "Onde ainda há a disponibilidade de água, tem de garantir sua preservação. Mas, a tendência é de que ela falte. Diante de grandes períodos sem água, os agricultores fatalmente terão de adotar técnicas para reter esse recurso nos sistemas de produção, seja por meio da açudagem, do uso de cisternas e, até, lançando mão de barragens subterrâneas, para as condições mais extremas", adverte. O pesquisador da UFPR ressalta, ainda, as dificuldades que as economias locais e regionais dependentes da fruticultura temperada ou da produção animal no Sul enfrentarão com as alterações climáticas. É o caso do impacto do aquecimento global na polinização de frutíferas, como as da produção de pêssego, maçã, nectarina e ameixas, quando a região passar a não oferecer mais condições adequadas para esse tipo de cultura. Na produção animal, ele destaca como principais cadeias afetadas as do leite (que tem presença forte da agricultura familiar), de carnes e de fibras têxteis. Para ele, raças selecionadas e adaptadas ao clima mais frio da região Sul, podem perder sua função econômica e a situação exigirá a mudança da base genética, privilegiando raças mais adaptadas ao calor. À título de comparação, ele tece algumas projeções, como a troca do gado holandês pelas raças zebuínas e a das ovelhas de lã pelos animais deslanados. As pastagens de inverno também estariam com seus dias contados, aponta o pesquisador, à medida em que a temperatura na região for subindo. Nem tudo está perdido - Antes que a "síndrome do pânico" gere uma onda de apatia, Paulo Mayer diz que os agricultores familiares têm de se preocupar, sim, e arregaçar as mangas, mas no sentido da mudança de postura e da adoção de técnicas de base ecológica. Porque a agricultura familiar, se comparada com a agricultura de grande porte, tem mais capacidade de se adaptar aos novos tempos. Diferentemente das economias dependentes da monocultura, a produção familiar por si só - e sendo diversificada - reúne condições sociais e de manejo com a natureza, que são capazes de suportar melhor e enfrentar os problemas decorrentes do aquecimento global. Assim, qual agricultura não está totalmente ameaçada e tem possibilidade de sobreviver em ambientes mais hostis? "Aquela de base mais ecológica, orgânica ou a própria agroecologia", diz Mayer; "a que representar menor impacto ao meio ambiente; trabalhar com técnicas de policultivos; apresentar melhor cobertura vegetal; fizer uso de quebra-ventos e renques de pastagens; revolver menos o solo; adotar pastoreio racional, cultivos agroflorestais, cuidar das APP's e preservar reservas legais", completa. "Transgênicos, nem pensar!" - Segundo o doutorando em meio ambiente, está comprovado cientificamente que o uso constante do glifosato - herbicida da soja transgênica - inibe o desenvolvimento das bactérias do gênero Rizhobium, presentes nas leguminosas, que são os microorganismos responsáveis pela fixação do Nitrogênio do ar, ou seja, pela fixação natural de Nitrogênio. Esse elemento, por sua vez, está diretamente ligado ao desenvolvimento da parte vegetativa e à produção de grãos, além de ser o principal constituinte da proteína do soja. Com a falta do ingrediente natural, aumentará a demanda pelo Nitrogênio artificial, que tem custo muito elevado, uma vez que é derivado de petróleo e já é possível imaginar os estragos causados pela valorização desse elemento artificial sobre o preço dos insumos (importados) das lavouras e no bolso dos produtores. Mayer lembra também que a aplicação do glifosato torna o sistema radicular da soja menos eficiente na absorção de nutrientes e da água, o que acarreta prejuízos ao desenvolvimento da planta e na produtividade da cultura. "É por isso que defendo que a agroecologia na agricultura familiar tem um papel fundamental a desempenhar nessa mudança de comportamento. A população urbana sabe exatamente como fazer a sua parte para diminuir a poluição nas cidades. Basta que o faça. Mas a agricultura, até em termos territoriais e pelo tamanho da área ocupada, pode dar uma contribuição maior no enfrentamento das problemáticas trazidas pelo aquecimento global e na reconstituição da natureza", arremata o pesquisador. Jornalista: Thea Tavares
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