Sábado, Julho 21, 2007

Muito Além da Omissão


Duzentas pessoas estão mortas, duzentas famílias choram suas perdas, a maior cidade brasileira convive com os escombros à margem de uma de suas avenidas mais movimentadas, o País está aturdido com a tragédia de dramaticidade acentuada por ter sido anunciada e o cidadão que, embalado pelos números de pesquisas, se pretende a síntese do Brasil tira o corpo fora.

Ontem, 48 horas depois do segundo sinistro aéreo gravíssimo em 10 meses de exposição do colapso do setor aéreo, o presidente Luiz Inácio da Silva ainda examinava a conveniência de se dirigir à Nação hoje, quatro dias depois.

Em ocasiões de comoção, autoridades com um mínimo de consideração para com seus compatriotas costumam aparecer de pronto em público, sem pesar nem medir se isso lhe renderá benefícios ou malefícios políticos.

Esse gesto mínimo o presidente da República ontem ainda devia ao País, a São Paulo, às famílias, aos mortos.

Seja para uma explicação a respeito do ocorrido, seja para uma palavra além da nota formal de consternação, seja para demonstrar interesse em algo além do culto à própria personalidade, seja para preencher o silêncio indolente e covarde da instância do poder público responsável pelo tráfego aéreo, seja para corrigir o rumo das estultices ditas por quem falou.

No dia seguinte ao desastre, o presidente da República de objetivo só fez livrar-se do desconforto de um terçol no olho direito, após o que descansou.

Até o início da tarde de ontem, a única voz palaciana a se pronunciar havia sido a do ministro das Relações Institucionais, Walfrido Mares Guia, para pedir prudência para com "julgamentos apressados". Ato contínuo, julgou: "Não é culpa do presidente nem de ninguém, a não ser de quem estava pilotando, se o desastre tiver ocorrido por falha humana."

Do presidente a quem se confere o atributo de fenômeno andante - mas sobretudo falante - nem um reles telefonema de solidariedade ou oferta de auxílio aos governadores José Serra, de São Paulo, onde não conseguiu aterrissar o avião , e Yeda Crusius, do Rio Grande do Sul, origem de vôo e de boa parte das vítimas.

Quando em campanha eleitoral, no ano passado, o presidente da República não perdia uma única oportunidade de fazer publicidade em torno de suas reiteradas ofertas de "tropas" para auxiliar no combate à violência nos Estados do Rio de Janeiro e de São Paulo.

Agora mesmo, quando 20 pessoas foram mortas no complexo do Morro do Alemão, no Rio, Lula de pronto manifestou-se ao governador Sérgio Cabral. Lá, durante a campanha, pretendia mostrar-se como contraponto de eficiência diante de dois governos adversários: o de Geraldo Alckmin, ocupado por Cláudio Lembo, e o de Rosângela Matheus, do clã dos Garotinho.

Aqui, teria tido alguma influência em seu silêncio - indolente não denotasse pusilanimidade pura e simples - o fato de os governadores Serra e Crusius pertencerem a um partido de oposição?

Tudo indica que sim, se acrescentarmos ao silêncio sinais de que o governo federal busca jogar o problema no colo das autoridades paulistas quando, de forma sub-reptícia, divulga a existência de um laudo inexistente de instituto ligado à Universidade de São Paulo atestando as condições perfeitas de uso da pista principal do Aeroporto de Congonhas, onde o piloto do Airbus da TAM não conseguiu aterrissar.

Que o presidente da República tem predileção por situações favoráveis e horror físico às desfavoráveis, diversos episódios ao longo dos últimos cinco anos já demonstraram sobejamente. No último, recusou-se a declarar abertos os Jogos Pan-Americanos por contrariedade com as vaias no Maracanã.

O que não se sabia, porém, é que o homem que preside o Brasil se deixaria tomar pelos mesmos sentimentos de mesquinhez auto-referida em situação de tragédia nacional.

Omitiu-se ao longo dos primeiros meses da crise, bravateou no restante deles e, quando sobreveio o desastre, escondeu-se. Preocupado apenas - isso transpareceu em todos os movimentos originários do Palácio do Planalto - com a repercussão política do fato sobre sua popularidade.

Sua imagem era o centro da aflição. Tanto que a reunião de ontem de manhã foi com a coordenação política, para avaliar como contornar os obstáculos e reduzir o risco de danos nas próximas pesquisas.

Estas sim o termômetro das ações do Palácio do Planalto, que trata como cidadãos de segunda pessoas que supõe sejam de primeira classe porque viajam de avião, lêem jornais, compram ingressos para ir ao Maracanã, vivem do trabalho, não estão entre o público alvo das esmolas oficiais, não vêem os governantes como benfeitores a quem se deve reverência e gratidão e acham que nunca antes neste país um governo desdenhou de tantos durante tão longo tempo com tal grandiosa desfaçatez.

A frase original é de Millôr Fernandes e trata da fronteira da ignorância, mas pode ser adaptada à circunstância: na crise, o governo chegara ao limite de sua capacidade de omissão. E, no entanto, prosseguiu.

Dora Kramer - FOLHA DE SÃO PAULO - 20/7/2007




Defesa e ataque



O governador de SP, José Serra, mobilizou os 300 defensores públicos de SP para auxiliar os parentes das vítimas do acidente da TAM. Dependendo do resultado das investigações, os defensores poderão sugerir processos contra a empresa -e até contra órgãos do governo Lula.

De acordo com Vitore Maximiano, sub-defensor geral de SP, a intenção da equipe é, guardado o período de luto, procurar os que não têm condições de pagar advogados. "Vamos buscar parentes de funcionários da TAM, vítimas que estavam no posto de gasolina, pessoas que teoricamente têm menos recursos", diz.

Numa primeira análise, a defensoria calcula que o valor aventado das indenizações que a TAM se disporia a pagar- cerca de R$ 900 mil - são insuficientes para arcar com pensões vitalícias às famílias.

Dos quatro diretores da Anac, apenas um, Jorge Velozo, é do setor. Aviador, ele é especialista em segurança de vôo.

O presidente da Anac, Milton Zuanazzi, diz em seu currículo que é "pós-graduado em sociologia, com ênfase em análise política", tendo sido "vereador de Porto Alegre" e assessor de Walfrido dos Mares Guia no Ministério do Turismo. A advogada Denise Abreu trabalhou com José Dirceu na Casa Civil, foi "chefe de gabinete da Secretaria de Saúde" de SP e "da Febem". Leur Lomanto "foi deputado federal por sete mandatos consecutivos", além de assessor parlamentar da Infraero. Josef Barat é economista.

Mônica Bergamo - FOLHA DE SÃO PAULO - 20/7/2007




Falando em Defesa


A Polícia Militar vem há tempos alertando sobre este golpe, mas muitos ainda estão caindo por ele ser aplicado normalmente em um ambiente de descontração. Você está sossegadamente tomando seu drinque e ouvindo música, com amigos, num bar, de noite, quando alguém vem perguntar de quem é o carro de tal marca, com placa X, que está estacionado de maneira a impedir a saída do carro de trás. O solicitante pede, gentilmente, que o proprietário, que pode ser você, manobre o carro para o outro sair. Só que, ao chegar lá, percebe que é um assalto. A Polícia Militar avisa que tem registrado vários destes casos, inclusive com vítimas baleadas. E sugere que, numa situação destas, o proprietário não vá sozinho. Sempre com uma penca de amigos.


Postado por por... [Dostoiévski] às 6:18 AM

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Quarta-feira, Julho 18, 2007

Conheça Lactobacilo Morto

A Lenda da Menor Desigualdade


Reportagem de Julio Wiziack, alçada à manchete de domingo na Folha, ajuda a desmontar mais uma lenda brasileira, a da queda da desigualdade. O texto mostra que mais da metade da riqueza brasileira vai para uma pequena fatia de milionários. "Apenas 10% da população continua se apropriando de 80% da renda nacional", diz Gabriel Ulyssea, pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada do Ministério do Planejamento.

A origem da lenda é uma só: a Pnad (Pesquisa Nacional por Amostragem de Domicílio), feita pelo IBGE. Nela, como é lógico, mas não é registrado, a parte dos pesquisados que tem outra renda, além do salário, não declara tudo o que de fato ganha. Outros pesquisadores do Ipea já mostraram que há 90% de subdeclaração.

Os mais pobres tendem a declarar o que de fato ganham. Como ganharam mais, parece menor a diferença com o andar de cima, mas só porque esse subdeclara.

Essa constatação vale para qualquer pesquisa do gênero, como diz Ulyssea: "Eles [os milionários] temem por sua segurança [e] querem pagar menos impostos".

Contribuiu para a lenda o fato de que realmente diminuiu a desigualdade entre os assalariados, por uma série de fatores. Mas aumentou a diferença entre assalariados e rentistas, como constata um dos melhores pesquisadores do tema no Brasil, Marcio Pochmann (Unicamp), em artigo para o jornal "Valor Econômico": "A parte da renda do conjunto dos verdadeiramente ricos afasta-se cada vez mais da condição do trabalho para aliar-se a outras modalidades de renda, como aquelas provenientes da posse da propriedade (terra, ações, títulos financeiros, entre outras)".

Conseqüência inescapável: a participação do trabalho na renda brasileira caiu de 50% em 1980 para 39,1% em 2005. Não se constrói um país decente propagando lendas.

Clóvis Rossi - FOLHA DE SÃO PAULO - 17/7/2007




ELEIÇÕES



Nas eleições do ano que vem, serão 74 os municípios com eleições em dois turnos. Agora fazem parte do clube das cidades com mais de 200 mil eleitores: Aparecida de Goiânia (GO), Betim (MG), Macapá (AP), Blumenau (SC), Franca (SP) e Volta Redonda (RJ). Em 2004, eram 68 municípios.

O GLOBO (RJ) - 16/7/2007




Serra vence Heloísa


A eleição presidencial de 2010 está longe e muita água pode passar debaixo da ponte.

Mas uma pesquisa nacional do IBPS, coordenada por Geraldo Tadeu Monteiro, mostra que, num cenário com José Serra, Ciro Gomes, Heloísa Helena, Sérgio Cabral, Cristovam Buarque e Marta Suplicy, o governador paulista vence com 21%, seguido de HH, com 15%.


Heloísa vence Aécio


Mas num cenário com Tarso Genro no lugar de Marta, e Aécio no de Serra, a vitória seria de Heloísa Helena (17%). Atrás vêm Aécio (16%) e Ciro (16%).


PT sem Lula



Outra constatação: o PT de Lula não tem um candidato forte até agora.

No primeiro cenário, Marta tem 3%. No segundo, Tarso Genro aparece com 4%.

Ancelmo Góis - O GLOBO (RJ) - 16/7/2007


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Quarta-feira, Julho 11, 2007

Pedras e Buracos

Felipe Biglia

As estradas levam aos mesmos lugares.
Viajar seguindo seus instintos naturais.
Freqüentando igrejas e bebendo em bares.
Qual o caminho que mais te satisfaz?

Cada um tem uma pedra ou precipício.
Alguns são impossíveis de transpor.
Em cada um deles, desde o início
Encontra-se dor e até mesmo amor.

Ninguém lembra em quais pedras tropeçou,
Se são milhares ou somente dezenas.
Quem em muitos buracos já se acidentou
Sabe que às vezes as cordas são pequenas.

O corpo é seu bem mais importante.
Anote toda sua vida nesta folha
Informação é o que nos leva adiante.
Sua única liberdade é a de escolha.


Postado por por... [Dostoiévski] às 1:58 AM

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Segunda-feira, Julho 09, 2007

Oposição é com eles



Com apenas um senador e três deputados, o minúsculo P-SOL se torna o partido mais barulhento do Congresso. Lembra o PT de outros tempos...


Luciana Genro, Ivan Valente e Chico Alencar (em pé), José Nery e a ex-senadora Heloísa Helena (sentados). A bancada do P-SOL no Congresso cabe num Fusca Eles defendem a reestatização da Companhia Vale do Rio Doce, privatizada em 1996. Querem o fim do foro privilegiado para políticos e governantes. Endossam qualquer pedido de CPI que possa deixar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva em apuros. Berram mais alto que os outros contra a corrupção, dando a sensação de que a ética na política é uma bandeira só deles. Pensou no velho PT? Errou. Estamos descrevendo o Partido Socialismo e Liberdade, o P-SOL, o minúsculo clone do que o Partido dos Trabalhadores foi até chegar ao Palácio do Planalto, em 2003.

Com uma bancada formada por apenas três deputados e um senador – 0,6% do Congresso Nacional –, o P-SOL ganhou notoriedade nas últimas semanas por liderar, dentro do Congresso, o movimento que forçou o Senado a investigar seu presidente, o senador Renan Calheiros (PMDB-AL). No começo de junho, enquanto os grandes partidos acompanhavam quase em silêncio as tentativas para abafar a apuração sobre supostas irregularidades de Renan, foi o P-SOL que insistiu e conseguiu a abertura do processo no Conselho de Ética. Na semana passada, o partido fez a mesma coisa em relação ao senador Joaquim Roriz (PMDB-DF), suspeito de receber dinheiro de origem ilícita.

O P-SOL começou a ser construído no final de 2003, quando o PT expulsou a então senadora Heloísa Helena (AL) e três deputados federais. O quarteto, a ala de frente dos radicais do PT, não aceitou a guinada rumo ao centro do espectro político – conseqüência da transição petista da oposição para o governo. Votaram contra projetos de interesse do Planalto, como a minirreforma da Previdência, aprovada em 2003. Fizeram oposição ostensiva contra a política econômica do ex-ministro Antônio Palocci e contra a presença de Henrique Meirelles no Banco Central. "Não fomos nós que saímos do PT, foi o PT que saiu de si mesmo", diz o deputado Chico Alencar (RJ), líder do P-SOL na Câmara.

A simples divergência programática poderia ter gerado um partido que combatesse apenas o modelo econômico ou a gestão petista. Mas a crise ética em que o partido do presidente Lula mergulhou a partir de 2005 deu ao P-SOL a chance de tomar-lhe a bandeira da ética na política. O envolvimento de figuras importantes do PT e dos partidos aliados no escândalo do mensalão e na máfia das sanguessugas deixou um vácuo político, prontamente ocupado pelo P-SOL. Mas não é apenas nos modos de combate à corrupção que o P-SOL se assemelha ao PT oposicionista que marcou a política brasileira nos anos 80 e 90. "Não fomos nós que saímos do PT. Foi o PT que saiu dele mesmo" CHICO ALENCAR, deputado federal

Além da velha pregação anticapitalista e da defesa da ética na política, o P-SOL, a exemplo do PT, também se divide em instâncias de poder e em tendências internas. Hoje, há no partido quatro correntes, além dos que se dizem independentes. A disposição para disputar eleições com candidatos próprios, mesmo sem chances de vitória, é outra característica do P-SOL herdada do petismo. O objetivo é tornar o partido conhecido e transformar seus integrantes em referências políticas. Foi exatamente essa a estratégia que o PT adotou para popularizar o nome de Lula, que disputou todas as eleições para a Presidência e uma para o governo de São Paulo desde a redemocratização, nos anos 80.

Com base nessa estratégia, o P-SOL lançou candidato ao governo de 24 Estados em 2006, na primeira eleição que o partido disputou. Foi também por causa dessa estratégia que Heloísa Helena trocou uma candidatura à reeleição ao Senado, com chances reais de sucesso, pela corrida presidencial, em que ficou em quarto lugar. O saldo para o P-SOL foi a eleição de três deputados federais, metade da bancada herdada do PT. A presença de José Nery, do Pará, no Senado deve-se à renúncia da petista Ana Júlia Carepa, atual governadora do Estado.

Em 2008, o partido pretende lançar candidato próprio na maioria das capitais. Luciana Genro (P-SOL-RS) deverá ser candidata em Porto Alegre e Ivan Valente (P-SOL-SP) em São Paulo. O ex-petista Edmilson Rodrigues, prefeito de Belém entre 1997 e 2004, está cotado para tentar o terceiro mandato, desta vez pelo P-SOL. Heloísa Helena deverá ficar longe da disputa pela Prefeitura de Maceió. Seu nome é a opção para a sucessão de Lula, em 2010.

Qual é o futuro do P-SOL? "Não será um partido pequeno como o PSTU ou o PCO, mas dificilmente terá o mesmo tamanho do PT", afirma o cientista político Octaciano Nogueira, da Universidade de Brasília (UnB). "Além das circunstâncias históricas, falta-lhe um líder carismático como o Lula, que se tornou maior que seu partido." De acordo com o cientista político Leonardo Barreto, também da UnB, o P-SOL é hoje a opção mais legítima de esquerda que há no Brasil. Se assumissem algum tipo de poder executivo, segundo Barreto, também poderiam migrar para o centro. "No poder, é preciso fechar acordos, e nesse caso seria preciso algum tipo de moderação", diz.

PT e P-SOL nasceram com vocação para a oposição, mas em momentos diferentes da História. Fundado em 1980 a partir de movimentos da Igreja, de trabalhadores rurais e urbanos e de intelectuais, o PT apresentava-se à sociedade como uma das possibilidades de luta pela democracia. O Brasil vivia sob uma ditadura militar. "O PT foi uma das mais extraordinárias formas de organização partidária da História", afirma o senador José Nery (P-SOL-PA), filiado ao PT de 1985 a 2005.

Em 1989, quando Lula disputou a Presidência da República pela primeira vez, muitos militantes defenderam a expropriação de imóveis urbanos e a estatização do sistema financeiro. Nem o P-SOL empunha mais essas bandeiras. O partido surgiu em plena democracia, com as bandeiras marxistas praticamente restritas aos livros de História. "Somos um partido socialista, que percebeu as transformações do socialismo e da classe trabalhadora", afirma Chico Alencar. "Não somos heróis nem donos da verdade absoluta", diz a presidente do partido, Heloísa Helena. "Nesses episódios do Renan e do Roriz, estamos apenas cumprindo nossa obrigação de representar a sociedade." O P-SOL pode ter pouca relevância numérica e ser até folclórico na defesa de alguns temas. Num momento em que os políticos têm pouco crédito e a oposição ao governo parece perdida em meio a interesses pessoais, não deixa de ser positivo ter gente inconformada falando em ética no Congresso.


Revista ÉPOCA - 1/7/2007


Postado por por... [Dostoiévski] às 10:07 AM

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Terça-feira, Julho 03, 2007

Mudar pra quê?


O presidente Lula precisou de nove meses para descobrir que, sem o respeito à hierarquia, o nosso sistema de tráfego aéreo não poderia funcionar, pois é todo ele militarizado. Passar o serviço para a esfera civil é uma tarefa delicada, que teria de ser feita dentro de um planejamento que envolvesse a própria Aeronáutica, isso se ficasse claro que assim ele funcionaria melhor. Mas, no estilo ziguezagueante tão bem demonstrado na reportagem de José Casado no GLOBO de domingo, a primeira reação de Lula foi deixar pulsar sua veia sindicalista, desautorizando os chefes militares e fazendo acordos com os sargentos amotinados, como se fosse muito esperto e soubesse resolver as pendências na base da lábia.

Não cumpriu nenhuma das promessas feitas e, depois disso, deu diversos ultimatos aos amotinados, até autorizar a Aeronáutica a fazer "o que seja preciso" para resolver a situação. É claro que nada se resolverá a curto prazo, mesmo por que nesses nove meses nenhuma medida foi tomada para solucionar os problemas, seja compra de novos equipamentos, seja treinamento de controladores em número suficiente, seja a elaboração de plano de emergência.

Desde que assumiu o governo, em 2003, Lula parece que está aprendendo a governar, e somos as cobaias de seu treinamento "on the job". Como nunca quis ser outra coisa que não presidente da República, Lula assumiu sem antes ter passado por uma mísera prefeitura, sem ter, portanto, a menor idéia do que é ser administrador. E segue fazendo seu aprendizado, mudando de opinião como quem muda de camisa, dizendo uma coisa hoje, fazendo outra amanhã. Seu melhor projeto de governo é não ter colocado em prática o projeto petista de governar.

Na fase atual, Lula critica os ambientalistas e anuncia que o governo construirá Angra 3, mostrando outra vez a esquizofrenia de seu governo. A ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, que continua onde sempre esteve, fez críticas públicas à decisão do governo, o que indica que, permanecendo à frente do ministério, o Ibama vai dificultar ao máximo a licença ambiental para a retomada do projeto nuclear.

Em 2004, escrevi uma coluna cujo título era "Herança maldita", destacando algumas das contradições do governo até ali. Lembrava que o PT votara contra o Fundef, que mudou radicalmente o ensino fundamental no país. Hoje, uma das grandes vitórias que o governo canta é a criação do Fundeb, uma ampliação do programa anterior tão criticado.

O PT votou também contra a criação da CPMF, e hoje é tão imprescindível para fechar as contas públicas que o próprio governo petista quis transformá-la em permanente numa tentativa de reforma tributária ainda na gestão do ex-ministro Antonio Palocci.

Votou também contra a Lei de Responsabilidade Fiscal; contra a reforma da Previdência; contra a privatização das telecomunicações, entre muitos outros votos negativos, e hoje é a favor de todas elas, ou ao menos da maioria. As privatizações voltaram a ser demonizadas na campanha da reeleição, embora as Parcerias Público-Privadas sejam maneira de mascarar as privatizações em setores que não têm condições de progredir sem investimentos privados, pois o governo não tem recursos.

E até mesmo algumas privatizações já foram autorizadas, como a que permite a empresas privadas nacionais e estrangeiras explorar madeira na Amazônia. Uma lei aprovada por todos os partidos, inclusive o PSDB, e que burramente o candidato tucano Geraldo Alckmim, em vez de apoiar, denunciou como sendo um erro. Mais esquizofrênico que o governo Lula só mesmo o PSDB na oposição, que consegue acusar seu adversário de ter adotado suas políticas.

As terceirizações no serviço público, outro ponto que era muito criticado pelo PT, seriam transformadas em contratações de pessoal de carreira. Pois aumentaram as contratações e também as terceirizações. Há desculpas para todos os gostos nesse período em que o PT redesenha sua rota política. O senador Aloizio Mercadante e o então ministro da Fazenda, Antonio Palocci, foram os precursores, ao admitirem que o PT errou ao não apoiar as reformas no governo de FH. Lula, que já esclarecera anteriormente que nunca fora de esquerda, fez a crítica dizendo que a esquerda é "muito conservadora" quando se trata de reformar o Estado.

O presidente admitiu publicamente que só dá para fazer bravatas quando se está na oposição, numa aceitação da crítica de que o PT passou os últimos anos prometendo coisas que, chegando ao governo, não pode realizar. Mas Lula tem razão de não se preocupar com essas aparentes incongruências, ou talvez essa "banalização do erro" seja a expressão mais visível de seu decantado humanismo, e faça com que ele se identifique com a maioria da população. Afinal, é uma "metamorfose ambulante", como se define.

Apenas o seu carisma pessoal, juntamente com a situação econômica mundial - que estamos aproveitando graças ao bom senso de dar continuidade às políticas macroeconômicas iniciadas no governo anterior, e até mesmo aprimorá-las em alguns casos -, pode explicar a persistência de sua popularidade em meio a tantos descalabros administrativos e morais de seu governo.

Na pesquisa divulgada ontem, o descolamento entre o senso moral predominante na população e sua aprovação está explícito quando se revela que 70% da população acham que o caso de seu irmão Vavá foi "negativo" para o governo; 75% acreditam que Vavá estava mesmo fazendo negócios por ser irmão do presidente, e 52% acham que Lula sabia do que estava acontecendo. No entanto, sua aprovação continua estável, na faixa excepcional de 64%. Por que Lula mudaria?

Merval Pereira - O GLOBO (RJ) - 27/6/2007




Destaque


Camelô, sei não, merecia ganhar ISO 9000. Chove, aparece com guarda-chuva. Engarrafa o trânsito, surge com água.

Pois, na sede do Fluminense, apareceu ambulante com lata de leite em pó. É que o ingresso para o Flu x Botafogo de sábado, inauguração do Estádio do Pan, não era vendido, mas trocado por leite.

Ancelmo Góis - O GLOBO (RJ) - 27/6/2007


Postado por por... [Dostoiévski] às 3:15 AM

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Domingo, Julho 01, 2007

Sem eira nem beira


O Senado está perdido. Não tem embocadura para resolver o caso Renan Calheiros, tenta transferir a ele a responsabilidade da solução - cobrando reiteradas e inúteis vezes seu afastamento da presidência da Casa - e hoje é um refém da capacidade de resistência de um homem acusado, politicamente combalido e que não tem mais nada a perder em termos de imagem pública.

O Senado está perdido porque, acostumado às relações referidas nos punhos de renda, não sabe reconhecer o momento em que se impõe o uso da mão de ferro. E não necessariamente para condenar o senador Calheiros, mas para se organizar, para se assenhorear de suas prerrogativas e resolver a questão seja para que lado for.

Sem consenso nem energia para dar um passo no caminho da absolvição ou da condenação, o colegiado afunda-se numa situação dantesca, sendo empurrado ao sabor de manobras toscas como essa da suposta dificuldade em nomear um relator para dar prosseguimento ao processo por quebra de decoro parlamentar aberto no Conselho de Ética.

O Senado não sabe o que fazer com Renan Calheiros e tampouco sabe como lidar com as denúncias contra o senador Joaquim Roriz, flagrado em gravações da polícia falando sobre uma partilha de dinheiro a respeito da qual forneceu uma explicação inverossímil.

Segundo ele, pediu empréstimo pessoal de R$ 300 mil a um amigo empresário, recebeu dele um cheque de R$ 2,2 milhões do Banco do Brasil, a ser descontado no Banco de Brasília por intermédio de um ex-presidente da instituição que, por sua vez, é suspeito de ter desviado R$ 50 milhões quando presidia o banco por nomeação de Joaquim Roriz, então governador de Brasília. Deu para entender?

Pois é, no Senado também ninguém entendeu. Roriz levou 72 horas - desde a divulgação do teor das gravações em que aparece combinando com o ex-presidente do BRB Tarcísio Franklin de Moura o transporte dos tais dois milhões para o escritório do presidente do conselho de administração da empresa aérea Gol, Constantino de Oliveira - para apresentar a intrincada explicação, sem esclarecer, entretanto, por que o cheque era de R$ 2,2 milhões se o empréstimo foi de R$ 300 mil.

De lá para cá Roriz não apareceu no plenário e seus pares, paralisados, continuam a cobrar esclarecimentos. Alegam não poder prejulgá-lo. De fato, não podem nem devem. Mas se não um julgamento, alguma iniciativa seria imprescindível.

Mais não fosse para saber se o Senado considera a história passível de investigação interna ou se prefere deixá-la ao encargo da polícia.

Ou mesmo nenhuma das alternativas, pois a Casa pode também concluir pela inconsistência total das suspeitas e decidir esquecer o assunto, custe-lhe isso qualquer preço, menos o da admissão da incapacidade de decisão ou a confissão de que aos senadores falta o atributo do discernimento para firmar convicções.

Mas, não. Ficam todos esperando Roriz resolver o problema para eles quando, ao acusado, só ocorre, obviamente, se escorar em alguma tábua de salvação.

Cobrar dele a repetição de justificativas (capengas) já apresentadas não é o suficiente para apagar a crescente sensação de que os senadores são ineptos para administrar adversidades e que produzem uma grande confusão para ganhar tempo e apostar na falta de memória nacional, a fim de voltar o quanto antes à vida rósea de sempre, trocando mesuras e fidalguias entre si.

A situação é grave, o Senado é alvo de chacotas em toda parte e insiste em ignorar a impossibilidade de continuar agindo a reboque dos acusados. Não adianta apelar à renúncia ou à licença do presidente do Senado.

Por iniciativa própria Renan Calheiros não dará um passo. Tem na alma frieza bastante para continuar exatamente onde está. Se quiserem derrubá-lo, que o façam, mas não esperem que ele empunhe a arma e dirija contra o próprio peito o tiro.

Como parece que falta coragem para tomar uma decisão, os senadores fazem triste figura ao sustentar a farsa do relator. Desde o impasse simulado há dias pelo então relator Epitácio Cafeteira e depois repetido pelo substituto Wellington Salgado, com as respectivas defesas da absolvição sem investigação, seguidas de renúncias, o Conselho de Ética está parado à espera de um novo relator.

Dois já se ofereceram para a tarefa (Eduardo Suplicy e Demóstenes Torres), mas não foram aceitos porque estão interessados em investigar. Os que não estão fazem parte da urdidura do impasse à qual ameaçou se integrar de vez o presidente do conselho, Sibá Machado, ao anunciar disposição de abandonar a presidência exatamente para que tudo fique como está: na mais completa degeneração.

Pesquisa


Quanto pior fica o País em matéria de padrão de comportamento, mais baixo é o nível de exigência da população.

E se o Parlamento ainda fornece matéria-prima para o desafogo de consciências, prestando-se voluntariamente ao papel de saco de pancadas da Nação, aí mesmo é que prevalece o conformismo.

Dora Kramer - FOLHA DE SÃO PAULO (SP) - 27/6/2007




A vaca é inocente


O ruralista Abelardo Lupion reclamou na reunião do DEM, convocada para falar de Renan:

- Quero falar em defesa das vacas e dos bezerros! Os políticos precisam parar de botar a culpa neles!

Ancelmo Góis - O GLOBO (RJ) - 27/6/2007




Rádio Mundial Parte Para Cima


Além de não dar folga ao secretário de Comunicação, Airton Pisseti, na esfera política, o deputado Marcelo Rangel, líder do PPS na Assembléia, resolveu aciona-lo também promotoria pública. Junto com seu irmão Sandro Alex - ambos são diretores da Rádio Mundial FM de Ponta Grossa -, solicitou à Promotoria Pública a instauração de inquérito civil público contra o Governo do Paraná, especialmente contra Pissetti, pela publicação de nota oficial mentirosa e paga dinheiro público, na tentativa de denegrir a imagem do deputado e da emissora da qual é proprietário. O documento registrado oficialmente na manhã de ontem, na promotoria de Ponta Grossa acusa um ato de improbidade administrativa de acordo com a lei 8.429, de 2 de junho de 1992.

Crime de Responsabilidade


O argumento é que o Governo pode ter configurado crime de responsabilidade, pois conforme sustenta o pedido, o deputado Marcelo Rangel é presidente da Comissão de Obras e Comunicação da Assembléia Legislativa e está investigando, com a aprovação da Assembléia a má utilização de verbas publicitárias em 2005 e 2006, através de relatório do Tribunal de Contas do Paraná. A tentativa de lançar uma cortina de fumaça na apuração dos fatos que podem comprometê-lo, Pisseti optou pela publicação de uma nota oficial, em jornal de grande circulação em Ponta Grossa, oferecendo informações inverídicas e induzindo os leitores em erro.


Postado por por... [Dostoiévski] às 2:45 AM

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