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Segunda-feira, Agosto 27, 2007
"Brasileiro tem de assumir a própria lepra!" Nos últimos dias, dois artigos me interessaram muito: o ótimo texto de Roberto Pompeu de Toledo na Veja onde ele diz: "Os distraídos talvez não tenham percebido, mas o Brasil acabou..." e a reportagem de João Moreira Salles na Piauí, acompanhando FHC numa viagem, onde o ex-presidente declara: "Que ninguém se engane, o Brasil é isto mesmo que está aí..." e "continuaremos para sempre nesta falta de entusiasmo, neste desânimo..."
Também sinto isso nestes dias sinistros, entre tragédias sangrentas e a aberta desfaçatez de políticos desafiando a República. Às vezes, penso, como cantou Cole Porter: "Que devo fazer? tomo cianureto ou champagne?" Mas, lendo e relendo esses artigos, eu me pergunto: "Será? Será mesmo que estamos perdidos e mal pagos?" Aí, resolvi pegar meu velho telefone preto e ligar para o Nelson Rodrigues, lá no paraíso onde vive, um céu de teatro de revista, com nuvens de algodão e estrelas de papel dourado. Nelson me atende: - Você anda sumido, hein rapaz!... Está ficando mascarado? - Não, Nelson - estou deprimido com esta suja tragédia nacional. Até o FHC que tem bom humor está exalando cava depressão... - Sossega, leão... não é nada disso... "Nunca antes" o Brasil teve a chance luminosa de ver a própria cara! Estamos entendendo que a história marcha pelas brechas, pelos buracos de cupim... Não existem as tais "relações de produção e blocos históricos" - isso é bobagem... A história é um botequim de pé sujo... Você viu: o micróbio na barriga do Tancredo Neves mudou o curso do País; tudo ia bem e acabou sob o bigode do Sarney. E o ciúme do Pedro Collor não provocou o "impeachment"? Mais atrás, um porre do Jânio embaralhou a pátria! Ou não? É assim, rapaz... Veja você o Renan... Estou acompanhando tudo como um folhetim de mim mesmo: a amante, a "gestante", os envelopes de jabá, a fidelidade obstinada da esposa enganada, os oposicionistas no Congresso tremendo de medo de que ele revele o nome das namoradas... Todos têm amantes em Brasília... Lá não há inocentes, todos são cúmplices... O Brasil está parado por um adultério financiado por uma empreiteira! Outro dia mesmo, a história mundial mudou por causa da Monica Lewinsky... Bush foi eleito por ela e pelo moralismo dos americanos contra o Clinton e o Gore. A guerra do Iraque começou entre seus lábios! Aqui, também é assim... Aliás, eu acho o Renan muito educativo. Ele nos ensina que o egoísmo privado é a Pedra da Gávea que resiste a todo interesse público... E a classe média, que babou na própria gravata durante séculos, está acordando da própria estupidez. Qualquer vendedor de Chicabon já entende de economia; nunca contemplamos nosso destino de vira-latas com tanta nitidez... Quer ver outra coisa boa que aconteceu? A desmoralização dos bolchevistas de galinheiro que encantavam a consciência dos intelectuais... Estão todos de rabo entre as pernas, se esgueirando pelos cantos das universidades... Descobriram que a "revolução brasileira" era o oxímoro perfeito: a "revolução reacionária". É verdade que sobraram os pelegos sindicalistas roendo o Estado como rapadura, mas é melhor que o bolchevismo do Dirceu que ia destruir o Plano Real, em nome do povo... Aliás, cá entre nós, o Dirceu está podre de rico, fazendo negócios com os comunas latinos. Ele bate nas algibeiras e berra, ovante e jucundo: "Dinheiro há! Dinheiro há!" E a indústria das indenizações pela ditadura, comandada pelo Greenhalgh? Dizem que ele já tem até piscina com chafariz e filhote de jacaré! Qualquer sujeito que levou um tapa da polícia na ditadura pediu indenização: trinta contos por mês... Quer ver outra coisa boa? Acabou a idéia de "utopia"... Ninguém sabia direito o que era isso, pensavam que era a mulher do Prestes, a Dona Utopia... Pois, acabou; hoje, aprendemos que o que interessa é a "administração", que um país só cresce se for como um armazém, com o português de lápis atrás da orelha, fazendo contas... Sabe por que você e seus amigos intelectuais, como o doce Roberto Pompeu estão tristes? Porque no fundo vocês ainda acreditam em uma "harmonia futura"... Maquiavel acabou com essa ilusão do Platão há muito tempo... Aliás, o Maquiavel fica rindo do Hegel aqui em cima, que anda muito deprimido. Rapaz... a história é uma selva de epilépticos, a história não é um "piquenique", não. E tem mais: debaixo desses escândalos e tragédias, muitos fios vão se tecendo. As "coisas" têm vida própria... De noite, microrrevoluções se passam, nas insônias das pessoas... Por exemplo, a oposição se derreteu, mas a imprensa está fazendo gol de bicicleta... As coisas se movem no escuro... E tem o Acaso, também. Por exemplo, esse Lula tem sorte pra burro, rapaz; se ele der um palpite do bicho, joga na cabeça, porque ganha... Ele herdou a inflação zero do FHC, diz que foi ele que fez, e ainda pegou a economia numa fase rara! O Milton Friedman chegou aqui outro dia e me disse: "Olha, Nelson, eu achava que "não tinha almoço de graça", não. Mas, tem. O Lula está comendo de graça." Esta crise aí passa logo e com a economia funcionando, temos a chance única de assistir ao teatro de revistas do Brasil... O primeiro passo para a reconstrução nacional é a desmoralização absoluta! O Jorge Luis Borges, que anda por aqui tropeçando nos anjinhos, disse que a "esperança é o mais sórdido dos sentimentos..." Ele não é burro, não... A frase é boa - o Otto Lara está com uma inveja danada... O único perigo seria uma quebradeira econômica. Aí o Lula podia querer "venezuelizar" a coisa e chamar os analfabetos para cerrar fileiras e criar a tal Assembléia Constituinte, mas o Tocqueville me garantiu que acha difícil, porque o Lula não é o Chávez, aquele leão-de-chácara da Praça Mauá... O Brasil é mais complicado... Olha, rapaz, o sujeito e os países só se salvam se assumirem a própria miséria, a própria lepra!... Em vez de reclamar, vocês deviam se agachar e beber a água da sarjeta! Ela é a salvação!... - Obrigado, Nelson, ganhei mais um dia... Arnaldo Jabor - O ESTADO DE SÃO PAULO - 21/8/2007 Elite e Pobres: Os Brasileiros Dono, há quatro anos e meio, da faixa presidencial, o torneiro-mecânico Luiz Inácio Lula da Silva não entendeu ainda que foi eleito para tornar o Brasil um país mais equânime, mais desenvolvido e menos preconceituoso. Ganhou votos de todos, de miseráveis a donos de fortunas planetárias. Gente que o elegeu não porque nasceu em Garanhuns de família humilde, mas trabalhadora. Nem porque subiu na vida com cursos técnicos, ganhou profissão, se fez sindicalista e, depois político fundador de partido. Mas, sim, porque confiou nele e acreditou na sua profissão de fé por um país que caminharia para reduzir a distância entre pobres e ricos, estimularia o investimento, abriria postos de trabalho, destinaria fartos recursos para saneamento básico, educação e saúde. Cuidaria de estradas, portos, aeroportos, hidrovias. Fortaleceria, enfim, a infra-estrutura. E por aí afora. Desde o primeiro mandato, contudo, o presidente reconduzido por 58 milhões de eleitores ao comando da nação (outros 37,5 milhões preferiram o adversário tucano Geraldo Alckmin), insiste em imergir no atoleiro do confronto de classes. De um lado, a elite, que sempre joga contra. De outro, o pobre, aquele para o qual ele diz governar e se considera ungido. Elite, ensina o mestre Aurélio, é o que há de melhor na sociedade ou num grupo. Ou, na tradução sociológica, minoria constituída de indivíduos mais aptos e/ou poderosos. Pobre é aquele que não tem o necessário à vida. Na definição palanqueira do presidente Lula, a elite resume-se aos poderosos que jamais passaram fome, estudaram em bons colégios particulares, chegaram à universidade, têm dinheiro em aplicações financeiras e viajam para o exterior. Pobres são os que lutam para ter algo de comer, se estudam o fazem em escolas públicas e raramente completam cursos superiores. Os primeiros, ensina o seguidor brasileiro de Hugo Chávez, são algozes. Os outros, vítimas. De tanto repetir, com diferentes ênfases, a cantilena, o chefe de Estado foi conquistando adeptos. O último, o governador do Rio, Sérgio Cabral. ... Entoaram a baboseira unidos. Cabral pediu para a platéia apupar os 12 estudantes que ensaiaram uma vaia, fantasiados com narizes de palhaço. Taxou-os de pequeno-burgueses. Lula veio em seu socorro e decifrou-os: eram desprovidos de consciência política1. Ambos estavam errados. Os jovens irreverentes apenas exerciam uma garatia que lhes dá a Constituição: a manifestação de opinião (mesmo que de forma nada diplomática ou mesmo mal-educada). O presidente Lula e seus aliados de ocasião precisam aprender que nem todo brasileiro da elite é culpado. Nem todo pobre é inocente. Os bons e maus habitam em todas as classes sociais, em todas as cidades, nas zonas rurais, na profundeza da selva amazônica, nos planaltos e nas planícies. Os eleitos para o principal gabinete do Palácio do Planalto não são votados para representar apenas uns ou outros. Mas todos. A retórica da separação de classes desrespeita o resultado das urnas, denigre quem a adota e divide um Brasil que só será grande quando conseguir diminuir significativamente a distância entre ricos e miseráveis. E tal desafio se vence com investimentos em educação, da pré-escola à universidade. E além, com o financiamento de bolsas de estudo no exterior para aqueles que o país dotou de conhecimentos e dos quais precisa para avançar. Não importa se passaram fome na infância ou se cresceram em torno de mesas fartas. Vale apenas que são brasileiros. De corpo e alma. Ana Maria Tahan - 21/8/2007 Boicote ao MPF A investigação do uso de avião da FAB pelo filho mais novo de Lula, Luiz Cláudio, ocorrido em 2004, só não avança porque a Presidência da República tem sonegado informações à procuradora Eliane Rocha. Cláudio Humberto - FOLHA DE LONDRINA (PR) - 27/8/2007 Nota 1: Grifo do editor.
Sábado, Agosto 25, 2007
Felipe Biglia A chuva cai no telhado, Escorre para lavar a terra, Mas não limpa minha mente Que gira em torno de um pensamento. As plantas riem de seu banho, Enquanto meus olhos imitam as nuvens. As lágrimas salgam minha boca, Amenizam o amargo do coração. A chuva incessante no telhado, Aguarda o frio vento matinal. Meus olhos completamente molhados, Esperam te ver ao meu lado. O solo sente a água em suas entranhas. Invadindo sem nenhuma permissão. A terra admirada com a beleza Não demonstra nenhuma oposição.
Quarta-feira, Agosto 22, 2007
da Folha de S.Paulo As novas regras da língua portuguesa devem começar a ser implementadas em 2008. Mudanças incluem fim do trema e devem mudar entre 0,5% e 2% do vocabulário brasileiro. Veja abaixo quais são as mudanças.
HÍFEN Não se usará mais: 1. quando o segundo elemento começa com s ou r, devendo estas consoantes ser duplicadas, como em "antirreligioso", "antissemita", "contrarregra", "infrassom". Exceção: será mantido o hífen quando os prefixos terminam com r -ou seja, "hiper-", "inter-" e "super-"- como em "hiper-requintado", "inter-resistente" e "super-revista" 2. quando o prefixo termina em vogal e o segundo elemento começa com uma vogal diferente. Exemplos: "extraescolar", "aeroespacial", "autoestrada" TREMA Deixará de existir, a não ser em nomes próprios e seus derivados ACENTO DIFERENCIAL Não se usará mais para diferenciar: 1. "pára" (flexão do verbo parar) de "para" (preposição) 2. "péla" (flexão do verbo pelar) de "pela" (combinação da preposição com o artigo) 3. "pólo" (substantivo) de "polo" (combinação antiga e popular de "por" e "lo") 4. "pélo" (flexão do verbo pelar), "pêlo" (substantivo) e "pelo" (combinação da preposição com o artigo) 5. "pêra" (substantivo - fruta), "péra" (substantivo arcaico - pedra) e "pera" (preposição arcaica) ALFABETO Passará a ter 26 letras, ao incorporar as letras "k", "w" e "y" ACENTO CIRCUNFLEXO Não se usará mais: 1. nas terceiras pessoas do plural do presente do indicativo ou do subjuntivo dos verbos "crer", "dar", "ler", "ver" e seus derivados. A grafia correta será "creem", "deem", "leem" e "veem" 2. em palavras terminados em hiato "oo", como "enjôo" ou "vôo" -que se tornam "enjoo" e "voo" ACENTO AGUDO Não se usará mais: 1. nos ditongos abertos "ei" e "oi" de palavras paroxítonas, como "assembléia", "idéia", "heróica" e "jibóia" 2. nas palavras paroxítonas, com "i" e "u" tônicos, quando precedidos de ditongo. Exemplos: "feiúra" e "baiúca" passam a ser grafadas "feiura" e "baiuca" 3. nas formas verbais que têm o acento tônico na raiz, com "u" tônico precedido de "g" ou "q" e seguido de "e" ou "i". Com isso, algumas poucas formas de verbos, como averigúe (averiguar), apazigúe (apaziguar) e argúem (arg(ü/u)ir), passam a ser grafadas averigue, apazigue, arguem GRAFIA No português lusitano: 1. desaparecerão o "c" e o "p" de palavras em que essas letras não são pronunciadas, como "acção", "acto", "adopção", "óptimo" -que se tornam "ação", "ato", "adoção" e "ótimo" 2. será eliminado o "h" de palavras como "herva" e "húmido", que serão grafadas como no Brasil -"erva" e "úmido". Tranquilizem-se os Internautas! BloggerMan não morreu!!! Constatado vestígios de sua presença há poucos dias:
Sábado, Agosto 18, 2007
Luiz Inácio da Silva não escreveu o artigo que assinou na Gazeta Mercantil de 7 de janeiro de 2002, com o título Morte anunciada do transporte aéreo. Até aí, nada de mais. No mundo inteiro, políticos costumam delegar a confecção desse tipo de texto a algum redator de confiança, capaz de reproduzir com parágrafos claros, amparados em argumentos consistentes, o pensamento de quem vai assiná-lo. A tarefa é quase sempre entregue a um assessor. No caso do artigo subscrito por Lula, o verdadeiro autor é o advogado Roberto Teixeira.
Amigos há mais de 20 anos, são também compadres - e duplamente: Lula é padrinho da filha de Teixeira, que batizou um dos filhos do presidente. Na forma, o texto publicado pela Gazeta Mercantil demonstra que o redator ao menos poupou o idioma dos socos e pontapés sucessivamente infligidos pelo improvisador infatigável. No conteúdo, atesta que Teixeira, em janeiro de 2002, era um homem muito interessado em questões ligadas à aviação civil. Interessado demais. Advogado da Transbrasil havia quase dois anos, Roberto Teixeira costurou um arrazoado que o presidente da empresa agonizante assinaria sem reparos. Acabou assinado, sem reparos, pelo então presidente de honra do PT. Se o compadre achava aquilo certo, não custava endossar o palavrório. Instalado no Planalto meses mais tarde, Lula não socorreu a Transbrasil com dinheiro federal, como recomendara no artigo de Teixeira ao presidente Fernando Henrique Cardoso. Tampouco ajudou a Varig, tratada como patrimônio da nação em janeiro de 2002. Deixou na mão as duas empresas. Mas não o primeiro-compadre, hoje o mais valorizado bacharel dos ares do Brasil. Depois de lucrar com a falência da cliente, Teixeira foi contratado para assessorar o grupo que comprou a VarigLog, subsidiária da Varig. Em seguida, engendrou o arremate do restante da empresa por US$ 24 milhões. E arquitetou, sempre com o apoio do governo, a manobra que resultaria na entrega da Varig à Gol em troca de US$ 320 milhões. O advogado nega ter recebido a comissão de R$ 7 milhões por mais esse serviço prestado à aviação civil. Se não foi tanto, chegou perto, comunicou o sorriso exibido por Teixeira em 28 de março, quando acompanhou os empresários Nenê Constantino e Constantino de Oliveira Júnior, controladores da Gol, numa visita ao Planalto. O trio queria comunicar que um pedido de Lula acabara de ser atendido. "Há seis meses, o presidente me pediu que entrasse nas negociações para salvar a Varig", revelou o patriarca Nenê Constantino, aquele que ajudou o ex-senador Joaquim Roriz a ganhar uma bezerra e perder o mandato. A presença de Teixeira na animada comissão de frente fora sugerida pelo próprio Lula, mas o fabricante de artigos e transações aéreas gosta de lembrar que não é apenas o compadre do Homem. "Fui ao encontro como o advogado que estruturou o negócio jurídico e tinha condições de dar explicações, se isso fosse necessário", disse à saída do gabinete. "É sempre muito prazeroso estar entre amigos, como é o presidente, mas não tenho por que me arrepender. Minha presença decorreu de motivos profissionais". Como reivindicava o artigo agora exumado, as empresas nacionais têm o amparo federal: a Anac cuida da TAM, Teixeira cuida da Gol. Mas o transporte aéreo continua em perigo, como preveniu o título. Pode morrer no governo Lula. Augusto Nunes - JORNAL DO BRASIL (RJ) - 8/8/2007 Para rir Sabe qual a semelhança entre Renan Calheiros, Cebolinha e Bill Clinton? Todos caíram do cavalo com a Mônica. Clóvis Rossi Logo depois da derrota dos Estados Unidos na Guerra do Vietnã, passei um tempo em Washington para preparar uma série de reportagens. Um dado dia, conversei com os dois principais assessores do então secretário de Estado, Henry Kissinger. No dia seguinte, o Camboja, comunista, tomou o navio Mayaguez, norte-americano. Soaram todos os alarmes, porque parecia a comprovação da chamada "teoria do dominó" (caído o "dominó" Vietnã logo cairiam os demais países do sudeste asiático). Liguei para um dos assessores de Kissinger para tentar entender como seria a reação. Não estava. Deixei recado, por deixar. Parecia-me óbvio que um alto funcionário norte-americano jamais retornaria a chamada de um jornalista latino-americano, ainda mais em uma situação crítica. Menos de uma hora depois, telefonou de volta e me contou tudo o que podia contar. Aprendi na prática o significado de "accountability", uma palavra, aliás, que não tem tradução precisa em português. Eqüivale a "prestação das contas", mas mais forte. Faz parte da cultura política da maioria dos países desenvolvidos: os funcionários sentem-se compelidos a dar satisfações ao público que lhes paga o salário. Agora, Barcelona vive seus dias de São Paulo: caos no aeroporto, apagão (elétrico), congestionamentos nas rodovias, em pleno pico das férias de verão. O que faz a ministra de Fomento (Magdalena Álvarez)? Diz "relaxa e goza"? Some? Não. Interrompe suas férias em Málaga, dá a cara em Barcelona, pede desculpas pelos deficientes serviços públicos e se prontifica a comparecer ao Congresso para explicações. Essa é a diferença maior entre o Brasil e a civilização: aqui, os poderosos de turno se acham donos do poder, não empregados do público que os paga. Clóvis Rossi - FOLHA DE SÃO PAULO - 9/8/2007
Quarta-feira, Agosto 08, 2007
Vinícius de Morais O amor é o murmúrio da terra quando as estrelas se apagam e os ventos da aurora vagam no nascimento do dia... O ridente abandono, a rútila alegria dos lábios, da fonte e da onda que arremete do mar... O amor é a memória que o tempo não mata, a canção bem-amada feliz e absurda... E a música inaudível... O silêncio que treme e parece ocupar o coração que freme quando a melodia do canto de um pássaro parece ficar... O amor é Deus em plenitude a infinita medida das dádivas que vêm com o sol e com a chuva seja na montanha seja na planura a chuva que corre e o tesouro armazenado no fim do arco-íris. Elite x Elite Nada contra espinafrar as elites. Já até cansei de fazê-lo. É difícil encontrar em outro país, fora da América Latina, elites tão pequenas e tão predadoras como a brasileira. Mas é desonesto tentar caracterizar o atual confronto oposição/governo como uma contenda da elite contra o povão. Nada mais é que elite x elite. É desonesto, por exemplo, apresentar Luiz Inácio Lula da Silva como líder metalúrgico. Faz um quarto de século que Lula deixou de sê-lo (mais, na verdade, porque, como presidente de sindicato, já não pegava no torno).
Entrou para a elite. Ou alguém aí conhece outro ex-metalúrgico que tenha renda para comprar um apartamento parecido com o de Lula e, de quebra, ter sobra de dinheiro para investimentos financeiros como os declarados pelo presidente? Não, não é crítica a Lula. É elogio. É bacana ver alguém ascender na vida por seus meios e sua luta. Mas usemos os rótulos adequados, não uma falsificação. Marta Suplicy, por acaso, é operária? Aloizio Mercadante é camponês? Ricardo Berzoni é sem-teto? Essa gente toda faz -sempre fez- parte da elite. Nos governos anteriores, era a contra-elite, assim como a oposição atual é a contra-elite do momento. Um governo em que as principais políticas econômicas são determinadas por um banqueiro como Henrique Meirelles é contra a elite? Francamente ridículo. A demonstração acabada de que é uma briguinha de elite contra elite está dada pelo fato de que a política econômica da elite ora no poder é muito semelhante à da elite antes no poder, hoje na oposição. Nada também contra quem toma partido a favor de uma elite ou da outra. Desde que não minta: não se trata de uma batalha de idéias e de projetos para o país mas de um confronto pelo poder. Ponto. Clóvis Rossi - FOLHA DE SÃO PAULO - 1/8/2007
Sexta-feira, Agosto 03, 2007
Para Bresson, o real surge da representação assumida como tal e não do naturalismo.
Assim pretende justificar o assassinato de uma velha usurária, que ele vai cometer com requintes de violência. No filme de Bresson, agora lançado em DVD, um rapaz desempregado se torna batedor de carteiras, "uma aventura para a qual não fora talhado", e se justifica com uma teoria análoga à de Raskólnikov: o crime o destaca da massa e o dignifica. Não se submeter à lei criada pelos outros é a afirmação do seu gênio. O batedor de carteiras entra em ação pela primeira vez entre os espectadores das corridas de cavalos. Bresson filma a cena da forma mais antinaturalista -de resto, como todo o filme. Os atores-figurantes assistem à corrida de frente para a câmera. O batedor de carteiras está estrategicamente disposto atrás de sua vítima, movido por um impulso que, como já assinalaram outros críticos, tem muito de erótico. A cena ilustra a teoria do personagem: todos estão distraídos, como se fossem autômatos, suas expressões são banais à força de tanta semelhança, estão hipnotizados por um interesse comum. Só ele, à beira de cometer um crime, tem a atenção desviada. Seu olhar é o único vivo e misterioso na sua individualidade. No final do filme, o protagonista volta à cena do crime inicial, às corridas de cavalos, onde começou sua carreira. Mas, desta vez, apesar de toda a experiência acumulada, será pego em flagrante. Quando a mulher que ele ama o visita na prisão, o batedor de carteiras diz que foi preso porque se distraiu. Para ele, é uma idéia insuportável. Significa que já não se distingue da massa distraída, que foi vítima da distração, como todos os outros. Bresson era um cineasta marcado pela religião, pelas questões do pecado e da culpa. Adaptou dois outros textos de Dostoiévski: "Uma Mulher Dócil" (1969) e "Quatro Noites de um Sonhador" (1972), baseado em "Noites Brancas"). Na leitura idiossincrática que fazia da obra de Dostoiévski, Vladimir Nabokov não media as palavras quando era para pichar o compatriota. Em relação a "Crime e Castigo", o que mais o exasperava era a retórica sentimentalista levada ao cúmulo, segundo ele, na cena redentora em que o assassino e a prostituta lêem o Novo Testamento. Em "Pickpocket" também há expiação da culpa e redenção pelo amor. Mas nada pode ser taxado de sentimentalista. Todo o cinema de Bresson está fundado numa lição e num paradoxo teatral: o falso, quando homogêneo, resulta verdadeiro. Para que o real se manifeste na tela, é preciso que nem a cena nem os atores tentem disfarçar o que são. Para Bresson, o real brota do artifício da representação assumido como tal e não das convenções do naturalismo. Por isso, preferia não trabalhar com atores, que são fingidores profissionais. Preferia a inexperiência dos iniciantes, os quais chamava de modelos. O mundo em "Pickpocket" é representado como um cenário onde os homens evoluem numa coreografia milimetricamente ensaiada, que chega ao ápice quando, numa estação de trens, vários ladrões agem em conjunto. Os gestos são rigorosamente estudados e encenados, à maneira da própria "arte" do batedor de carteiras. Tudo é filmado em detalhe, em primeiro plano: mãos, carteiras, lapelas e bolsas, como numa dança de objetos parciais e autônomos. Um mundo de movimentos lentos e de figurantes vagando pelas ruas, como zumbis (que, às vezes, lembram os personagens dos quadros de Balthus) ao som amplificado dos seus passos nas calçadas, como se vivessem em estúdio. Assim como Dostoiévski, Bresson inaugura um mundo que não existia antes dele. E esse mundo é tão mais real por ser efeito de uma concepção autoral inimitável e sem precedentes. Antes de começar propriamente a ação do filme, o batedor de carteiras escreve em seu diário: "Sei que de costume os que fizeram tais coisas se calam e os que as contam não as cometeram. E, no entanto, eu as cometi". É a deixa para o espectador entender que nunca viu o que está para ver. E que daí em diante tudo dependerá desse paradoxo tão caro a Bresson, segundo o qual a verdade nasce da invenção. Num desdobramento e numa inversão muito peculiar da teoria de Raskólnikov, a própria arte rouba o lugar do crime. Bernardo Carvalho - FOLHA DE SÃO PAULO - 31/7/2007 Temores sobre os transgênicos estão se confirmando, diz cientista gaúcho O geneticista Flávio Lewgoy revela que já há vários casos comprovados no mundo de graves danos à saúde humana e animal provocados pelo uso de transgênicos. "O que os críticos dos transgênicos sempre disseram está aparecendo, e em grau exponencial, mostrando que se tratam de produtos de alto risco", afirmou. Um parecer científico da Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (Agapan) sobre os Organismos Geneticamente Modificados (OGMs), dirigido ao Conselho Estadual de Saúde, põe mais lenha na fogueira desse debate. O texto afirma, com todas as letras, que estão comprovados os riscos dos transgênicos à saúde humana e animal. Elaborado pelo químico e especialista em genética Flávio Lewgoy, ex - professor titular do Departamento de Genética da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs) e conselheiro da Agapan, o documento destaca que, em 1999, ele já tinha alertado a respeito do potencial nocivo dos OGMs, como resultado dos genes alienígenas inseridos em seus genomas. "Desde então, pesquisas científicas em renomadas instituições de vários países, bem como relatos de casos, evidenciam que esse potencial se concretizou, em alto risco à saúde pública e animal, com a liberação comercial de variedades Geneticamente Modificadas de soja e milho sem avaliação adequada", afirma Lewgoy. A seguir, ele enumera no documento de quatro páginas, com a citação das fontes científicas, vários exemplos disso. Tais pesquisas, observa, foram publicadas em periódicos científicos internacionais, de reconhecida seriedade, após rigorosa revisão por painéis de especialistas da mesma área - o chamado "peer review". "Os artigos expõem anomalias na bioquímica, sistema imune, anatomia, crescimento, reprodução e comportamento em animais aliementados com batatas, milho ou soja geneticamente modificados", assinala Lewgoy. Pesquisas com roedores São impressionantes, por exemplo, os resultados citados de pesquisas com roedores alimentados com transgênicos. No Rowett Institute, em Aberdeen, Escócia, roedores jovens alimentados com a batata transgência mostraram, após 110 dias, lesões pré-cancerosas no aparelho digestivo, limitado desenvolvimento do cérebro, fígado, testículos, pâncreas, intestinos dilatados e danos no sistema imune, relataram os cientistas Puztai e Ewen, autores do estudo. Já a doutora Irina Ermákova, da Academia de Ciências da Rússia, publicou que ratas alimentadas com soja RR (tolerante ao herbicida glifosato, liberada no Brasil) tiveram excesso de filhotes malformados e com pouca sobrevida: os sobreviventes eram estéreis. Além disso, num comunicado ao 14º. Congresso Europeu de Psiquiatria, ela advertiu ainda que a mesma dieta elevou os níveis de ansiedade e agressividade dos roedores. Com resultados bem semelhantes, cientistas das universidade de Urbino, Perguia e Pavia, na Itália, revelaram que a alimentação de camundongos com soja RR provocou alterações no pâncreas, fígado e intestino dos roedores. Reações humanas ao algodão, milho e soja Na Índia, em seis aldeias, os trabalhadores de plantações do algodão Bt (transgênicos) tiveram afecções de pele, olhos e aparelho respiratório. Detalhe importante: todos tinham, anteriormente, trabalhado com algodão não geneticamente modificado (convencional), sem apresentar esses problemas de saúde. Em outro caso relatado por Lewgoy, nas Filipinas, em 2003, cerca de 100 pessoas que viviam perto de uma plantação de milho Bt Mon810 tiveram reações cutâneas, intestinais, respiratórias e outros sintomas quando o milho começou a florescer. "Testes do sangue de 39 pessoas acusaram a presença de anticorpos contra a toxina Bt, o que reforça a suposição de que o pólen seria a causa do episódio. Esses sintomas reapareceram em 2004, em ao menos quatro outras localidades onde foi plantado o mesmo cultivar de milho". Já na Grã-Bretanha verificou-se um grande aumento nas alergias à soja após a introdução do produto GM. "Em 1999, em curto espaço de tempo, alergias causadas pelo consumo de soja tiveram um salto na incidência de 10% para 15%". A soja geneticamente modificada foi introduzida justamente naquele ano no país. E os testes sangüíneos para anticorpos revelaram reações diferentes das pessoas a variedades de soja não-transgências e transgênica (que tem maior concentração de uma proteína alergênica, por "coincidência"). Mortes de animais Após a colheita do algodão, no distrito de Warangal, em Andhra Pradesh, Índia, 10 mil ovelhas que pastaram folhas e brotos das plantas transgênicas adoeceram e morreram em cinco a sete dias, conta o geneticista. A causa provável apontada foi a a toxina Bt (do produto transgênico), sendo que não houve mortes de ovelhas nos campos de algodão não-Bt. Enquanto isso, em Hesse, Alemanha, doze vacas leiteiras de um rebanho, alimentadas com folhas e sabugos de milho Bt 176, duplamente transgênico, resistente ao herbicida glufosinato e secretor da toxina Bt, morreram. A Syngenta, fornecedora das sementes pagou 40 mil euros de indenização ao fazendeiro, mas as amostras coletadas para exames de laboratório sumiram, misteriosamente. Por outro lado, em fazendas dos Estados Unidos constatou-se que, entre ração transgênica e não-transgênica, os animais preferem a última: "Em testes feitos em fazendas, vacas e porcos repetidamente rejeitaram milho GM Bt. Animais que evitaram alimentos GM (soja RR, milho Bt) incluem vacas, porcos, gansos selvagens, esquilos, veados, alces, ratos e camundongos", destaca o parecer. Crítica à CTNBio Quando aprovou a liberação comercial do milho transgênico da Bayer (resistente ao herbicida glufosinato), recentemente, a Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) afirmou que a espécie não é potencialmente causadora de degradação ao meio ambiente ou de prejuízos à saúde humana e animal. "Esta afirmação não se sustenta nos fatos", critica o cientista gaúcho e conselheiro da Agapan. Segundo ele, as duas únicas pesquisas publicadas a respeito foram duramente criticadas por pesquisadores independentes por serem mal elaboradas, mas mesmo assim detectaram problemas no uso do produto. Um experimento com galinhas, cita Lewgoy, mostrou que as aves alimentas com ração de milho geneticamente modificado tiveram o dobro da mortalidade, além de menor ganho de peso. A segunda experiência empregou a proteína PAT, que o milho transgênico sintetiza, e filhotes de ratos alimentados por 13 dias com baixas ou altas doses da proteína tiveram problemas de crescimento. Além disso, completa, são muito reduzidos ou inexistentes os estudos sobre a digestão no organismo humano e animal do herbicida e seus metabólitos (empregados na planta e na espiga transgênica), bem como sua interação com os microorganismos do aparelho digestivo. Riscos preocupantes "Os riscos de saúde, humanos e animais, do consumo de transgênicos agrícolas, expostos e documentados neste parecer, imediatos - por exemplo, alergias - e a médio e longo prazo, afetando os sistemas nervoso, digestivo e imune, são preocupantes", afirma o geneticista. Na conclusão do documento, ele recomenda que seja exigido o cumprimento da lei que determina a rotulagem dos produtos transgênicos disponíveis aos consumidores. Orienta também para que o Conselho Estadual de Saúde do Rio Grande do Sul e dos demais estados e municipios tomem medidas judiciais para impedir o licenciamento e liberação comercial dos transgênicos que não tenham passado por rigorosas avaliações, feitas por cientistas independentes, declaradamente sem conflitos de interesse, ressalta. "Os defensores dos transgênicos estão ficando acuados, os fatos sinalizam que alguma coisa há de errado. Estamos na véspera de grandes acontecimentos para derrubar os mitos dos transgênicos, que só existem pelas enormes quantias que as empresas do setor investem", disse Lewgoy à EcoAgência. Genoma é muito complexo O geneticista destaca que o genoma é extremamente complexo, por isso é impossível aos cientistas que trabalham na produção de transgênicos controlar todos os seus efeitos. Para ele, estes fatos todos só não têm vindo à público por omissão da imprensa e cumplicidade de boa parte dos cientistas, alguns ingênuos - acreditando que ser contra os transgênicos é ser contra a ciência - e outros silenciados ou pagos pela indústria. Mas dois cientistas brasileiros já abandonaram a CTNbio por não concordarem com os procedimentos do órgão na avaliação dos OGMs, lembra. Por estranho que pareça, destaca, há muitos cientistas norte-americanos contestando os OGMs e que estão sofrendo represálias por isso: "O poder financeiro dessas empresas é estarrecedor, mas não estão conseguindo mais tapar o sol com a peneira, há uma série de denúncias contra os transgênicos, estamos vivendo outros tempos", acredita o cientista. Fonte: Texto de Ulisses A. Nenê para a EcoAgência.
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