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Sexta-feira, Novembro 30, 2007
Muitos leitores perguntaram ao longo deste mês qual era a minha agenda oculta. Meus textos são normalmente transparentes, sou pró-família, pró-futura geração, pró-eficiência, pró-solidariedade humana e responsabilidade social. Mas, como todo escritor, tenho também uma agenda mais ou menos oculta. Sempre que posso dou uma alfinetada nas pessoas e nos profissionais arrogantes e prepotentes. É a reclamação mais freqüente de quem já discutiu com tecnocratas. Uma vez no governo, parece que ninguém mais ouve. Eles confundem ser donos do poder com ser donos da verdade. Fora do governo, continuam não ouvindo e, quando escrevem em revistas e jornais, é sempre o mesmo artigo: "Juro que eu nunca errei". Toda nossa educação "superior" é voltada para falar coisas "certas". Você só entra na faculdade se tiver respostas "certas". Você só passa de ano se estiver "certo".
Aqueles com mestrado e Ph.D. acham equivocadamente que foram ungidos pela certeza infalível. Nosso sistema de ensino valoriza mais a certeza que a dúvida. Valoriza mais os arrogantes do que os cientificamente humildes. É fácil identificar essas pessoas, elas jamais colocam seus e-mails ou endereços nos artigos ou livros que escrevem. Para quê, se vocês, leitores, nada têm a contribuir? Eles nunca leram Karl Popper a mostrar que não existem verdades absolutas, somente hipóteses ainda não refutadas por alguém. Pessoalmente, não leio artigos de quem omite seu endereço ou e-mail. É perda de tempo. Se elas não ouvem ninguém, por que eu deveria ouvi-las ou lê-las? Todos nós dveríamos solenemente ignorá-las, até elas se tornarem mais humildes e menos arrogantes. Como não divulgam seus e-mails, ninguém contesta a prepotência de certas coisas que escrevem, o que aumenta ainda mais a arrogância dessas pessoas. O ensino inglês e o americano previlegiam o feedback, termo que ainda não criamos em nossa língua - a obrigação de reagir à arrogância e à prepotência dos outros. Alguém precisa traduzir bullshit, que é dito na lata, sempre que alguém fala uma grande asneira. Recentemente, cinco famosos economistas brasileiros escreveram artigos diferentes, repetindo uma insolente frase de Keynes, afirmando que todos os empresários são "imbuídos de espírito animal". Se esse insulto fosse usado para caracterizar mulheres, todos estariam hoje execrados ou banidos. "A proverbial arrogância de Larry Summers", escreveu na semana passada Claudio de Moura e Castro, "lhe custou a presidência de Havard." Lá, os arrogantes são banidos, mas aqui ninguém sequer os contesta. Especialmente quando atacam o inimigo público número 1 deste país, e empreendedor e o pequeno empresário. Minha mãe era inglesa, e dela aprendi a sempre dizer o que penso das pessoas com quem convivo, o que me causa enormes problemas sociais. Quantas vezes já fui repreendido por falar o que penso delas? "Não se faz isso no Brasil, você magoa as pessoas." Existe uma cordialidade brasileira que supõe que preferimos nunca ser corrigidos de nossa ignorância por amigos e parentes, e continuar ignorantes para sempre. Constantemente recebo e-mails elogiando minha "coragem", quando, para mim, dizer a verdade era uma obrigação de cidadania, um ato de amor, e não de discórdia. O que me convenceu a mudar e até mentir polidamente foi uma frase que espelha bem nossa cultura: "Você prefere ter sempre a razão ou prefere ter sempre amigos?". Nem passa pela nossa cabeça que é possível criar uma sociedade em que se possa ter ambos. Meu único consolo é que os arrogantes e os prepotentes deste país, pelo jeito, não têm amigos. Amigos que tenham a coragem de dizer a verdade, em vez dos puxa-sacos e acólitos que os rodeiam. Para melhorar este país, precisamos de pessoas que usem sua previlegiada inteligência para ouvir aqueles que as cercam, e não para enunciar as teorias que aprenderam na Sorbonne, Harvard ou Yale. Se você conhece um arrogante e prepotente, volte a ser seu amigo. Diga simplesmente o que você pensa, sem medo da inevitável retaliação. Um dia ele vai lhe agradecer. Stephen Kanitz - Veja - 28/11/07
Terça-feira, Novembro 27, 2007
90 ANOS Convidados: Jacó Guinsburg, Gabriel Cohn, Aurora Bernardini, Regina Pontieri, Paulo Bezerra e Jerusa Pires Ferreira.
Local: Casa de Cultura Japonesa - Universidade de São Paulo. Data: sexta-feira, 30 de novembro de 2007 - às 9h30 da manhã. Organização: Programa de Pós-Graduação em Literatura e Cultura Russa - DLO/USP. ESBOÇO BIOGRÁFICO DE BORIS SCHNAIDERMAN Boris Solomônovitch Schnaiderman nasceu em Úman (Ucrânia) no mesmo ano da revolução bolchevique. Veio ao Brasil com a família no ano de 1925. Concluiu, em escolas de São Paulo e do Rio de Janeiro, os estudos primário e secundário. Formou-se em 1940 como engenheiro-agrônomo no curso da Escola Nacional de Agronomia (RJ), profissão que exerceria até 1953. Alistado na Força Expedicionária Brasileira com a patente de sargento, lutou nos campos de batalha italianos da Segunda Guerra. A experiência gerou o livro de ficção Guerra em surdina (1964, 4a. ed. 2004). Começou a atividade literária na década de 1940 assinando traduções de obras russas (seis no total, a maioria para a editora carioca Vecchi) sob o pseudônimo de Boris Solomonov. De 1953 a 1961 foi revisor de uma enciclopédia preparada pela editora W. M. Jackson. Em fins da década de 1950, passa a assinar no jornal O Estado de São Paulo uma coluna ("Letras russas") que se estende até 1971. Foi a primeira e, salvo engano, a única e a mais duradoura iniciativa do gênero em um periódico importante no país. No campo do jornalismo cultural, foi o principal comentador da literatura russa no Brasil, assinando centenas de artigos e concedendo entrevistas em igual quantidade aos principais periódicos brasileiros, atividades que se mantêm intensas ainda hoje. Em paralelo, verteu para o português cerca de quarenta obras literárias de autores russos e soviéticos, prática que o transformou no principal tradutor brasileiro nessa área e que ajudou a colocar definitivamente o nível das nossas traduções em um patamar elevado de qualidade. Desde 1962, dedica-se a uma bem-sucedida carreira universitária. Inicialmente, com a criação do curso de russo da USP, do qual foi artífice, professor e diretor ao longo dos anos subseqüentes. Obteve, na década de 1970, os graus de doutor e livre-docente e realizou extensa atividade na pós-graduação, orientando e integrando diversas bancas de dissertações e teses. Apresentou e comentou teóricos importantes nas áreas de teoria literária e semiótica, como Leonid Grossman, Mikhail Bakhtin, Roman Jakobson, Iúri Lotman, Viktor Chklóvski e V. Ivánov. Além do campo da literatura russa, Boris Schnaiderman vem mantendo diálogo fecundo com escritores brasileiros novos e consagrados. Aposentado em 1980, continuou a participar de atividades dentro e fora da universidade. Dentre outras distinções e honrarias, recebeu duas vezes o prêmio Jabuti, nas categorias ensaio (1983) e tradução (2000). Obteve recentemente a Láurea de "O Estado de São Paulo" (2002), o Prêmio de Tradução da Academia Brasileira de Letras (2003) e o título de professor emérito da Universidade de São Paulo (2002), a mais alta honraria desta instituição. É autor de sete livros de crítica e teoria: A poética de Maiakóvski através de sua prosa. São Paulo, Perspectiva, 1971; Projeções: Rússia/Brasil/Itália. São Paulo, Perspectiva, 1978; Semiótica russa (org). São Paulo, Perspectiva, 1979; Dostoiévski prosa poesia. São Paulo, Perspectiva, 1982; Leão Tolstói: antiarte e rebeldia. São Paulo, Brasiliense, 1983; Turbilhão e semente: ensaios sobre Dostoiévski e Bakhtin. São Paulo, Duas Cidades, 1983; Os escombros e o mito: a cultura e o fim da União Soviética. São Paulo, Companhia das Letras, 1997.
Quinta-feira, Novembro 22, 2007
""Quero saber quem vai explicar aos pacientes do SUS (a falta de dinheiro)."" Presidente Lula sobre a eventual rejeição da CPMF, como se já não faltassem recursos.
Vergonha Quando se digita ""vergonha nacional"" no site de buscas Google Brasil, o primeiro resultado é, há dois meses, o site oficial do Senado Federal. ARREMATE A senadora Kátia Abreu (DEM-TO) matou a pau, ontem na Associação Comercial do Paraná, o argumento de Lula de que só rico paga CPMF. "O tributo abrange tudo. Para arrecadar R$ 39 bilhões, a contribuição tem de incidir sobre R$ 10 trilhões. São quatro PIBs do Brasil" Cafezinho delinqüente Jornalista combativo, Aparício Torelli, o ""Barão de Itararé"", foi preso em 1935 e levado à presença do juiz Castro Nunes. - A que o sr. atribui a sua prisão, seu Aparício? - Tenho pensado muito, excelência, e só posso atribuí-la ao cafezinho. - Como assim? - Vou explicar. Eu estava sentado no Café Belas Artes, na Avenida Barão do Rio Branco, tomando o meu oitavo cafezinho e pensando em minha mãe, que sempre me advertiu contra o excessivo consumo de café. Nesse momento, chegaram os policiais e me deram voz de prisão. Só pode ser um castigo pelo abuso do cafezinho.
Domingo, Novembro 04, 2007
HÁ UM VERSO de Drummond que diz: "Também sou brasileiro, moreno como vocês". Continuo moreno, mas às vezes duvido se sou mesmo brasileiro.
Talvez pelos longos anos de exílio, ou pela ausência de um equipamento mental adequado, o fato é que fico perplexo no momento em que todos parecem eufóricos. Acho estranho que governo e oposição briguem tanto em torno das verbas de saúde e sejam tão unanimemente festivos quando se comprometem a gastar com futebol. Não condeno gastos com a Copa, apenas lamento que essa ruidosa concordância não se dê em torno de outros temas essenciais. Mais curioso ainda é o deslocamento de governadores para Zurique. Será que nenhum deles tinha algo mais importante a fazer? Em outras palavras: nenhum deles teve a coragem de dizer aos seus eleitores que a viagem, em termos de custo-benefício, não compensava? Com tantos aspones, marqueteiros e puxa-sacos, certamente pesaram seus passos e acharam que sim, compensava, em termos eleitorais, participar da caravana internacional. Sempre nos acusam de espírito de vira-latas quando criticamos esse espalhafato. Mas não seria espírito de vira-lata toda essa ansiedade e oba-oba quando somos candidatos únicos? E essa história de escritores com metáforas duvidosas, essa mania de aplaudir entrevista coletiva, como fizeram como a de Ricardo Teixeira? Será que os aspones acham que impressionam os repórteres? Teixeira usou na entrevista um recurso, momentaneamente, típico no Brasil. Questionado sobre a violência, afirmou que ela existe também nos EUA e na Inglaterra. Tirem EUA e Inglaterra e coloquem "governo passado" e terão a fórmula mágica. Pior que, na caravana, estavam governo presente, passado e, possivelmente, futuro. Lembro-me de que, quando jovem repórter, fiz, numa coletiva em Portugal, pergunta sobre a ambigüidade brasileira na ONU em relação à independência dos países africanos. O então chanceler Juracy Magalhães respondeu irritado: como é possível torcer contra o Brasil? Considerava as dúvidas como antibrasileiras. Quando todos celebravam, amargava minhas dúvidas, não sobre a Copa, mas sobre essa trajetória de provincianos ruidosos em Zurique. Entre aplaudir a entrevista de Ricardo Teixeira e vaiar até minuto de silêncio, há margem de manobra. Continuarei vaiando os governos do passado, do presente e do futuro próximo. Certamente vão perguntar: como é possível torcer contra o Brasil? De certa forma, é minha especialidade. Se ser brasileiro é isso, não contem comigo. Fernando Gabeira - FOLHA DE SÃO PAULO - 3/11/2007
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